Conhecida popularmente como “viagra do sertão”, a castanha de baru produzida no Norte de Minas caiu no gosto de australianos, espanhóis e norte-americanos. O apetite dos gringos também cresceu para geleias, compotas e licores feitos de jabuticaba, mexerica e pequi. As iguarias produzidas pela pequena fábrica da Marinnho Alimentos, no Carlos Prates, em Belo Horizonte, atravessam oceanos até o destino final e ajudam a diversificar a pauta de exportações do Estado, ainda concentrada em minério e café. 
 
É um trabalho de formiguinha, mas que mostra o esforço das micros e pequenas empresas de explorar o exterior como um mercado rentável. Com artigos inovadores, gastronomia, moda e serviços, passaram a dividir a cena com as commodities, mesmo que como coadjuvantes. 
 
Segundo pesquisa do Sebrae-MG, 51% das empresas exportadoras mineiras são micros e pequenas, mas suas vendas equivalem a 0,8% do valor total exportado.
 
“Os micros e pequenos empresários estão descobrindo que há uma demanda diferente latente no exterior que pode ser explorada”, diz a analista da Unidade de Inteligência Empresarial do Sebrae em Minas, Venússia Santos.
 
Geleia
 
Foi o que percebeu Antonio Carlos de Carvalho Marinho, dono da Marinnho Alimentos e Bebidas, batizada assim após consulta a um numerólogo. “Passei quase 500 sugestões de nomes, que levaram bomba. Então ele disse que, se acrescentasse um ‘n’ ao meu sobrenome, ficaria legal. E não foi que deu sorte!”, diz Marinho, que depois da aposentadoria resolveu investir no ofício aprendido com a avó. 
 
“O baru é uma joia do cerrado brasileiro, mas pouco conhecida nas capitais. Senti que seria sensação no exterior”, revela o empresário. Ele estava certo. Em janeiro, durante a Madrid Fusión, feira gastronômica que homenageou a culinária mineira na Espanha, um cliente norte-americano encomendou quatro contêineres de geleia de baru, num total de 12 toneladas. O volume, porém, era muito maior do que a sua capacidade de produção em um ano inteiro – quatro toneladas. Com a perspectiva real de crescimento nas vendas, ele procurou uma consultoria para estruturar a empresa e saciar a clientela. 
 
“Sei fazer o produto e tenho para quem vender. Agora falta o dinheiro para investir. Quando o faturamento é pequeno, é um Deus nos acuda para conseguir financiamento”, reclama o empresário, que hoje exporta só 10% da sua produção de castanha de baru, fruto rico em ômega e zinco.
 
Pudim em pó, anéis e café de qualidade
 
O cardápio das pequenas empresas exportadoras inclui alimentos industrializados. Sócio-proprietário da Practice Line, Edmar Cerceau se prepara para levar ao Peru, Japão e China sua última invenção –o pudim de leite condensado em pó, mistura que necessita apenas do acréscimo de leite ou água para virar uma sobremesa. 
 
“O produto teve uma grande aceitação em feiras internacionais e vai marcar nossa estreia no exterior. Em março do ano que vem faremos os primeiros embarques”, comemora. Outra receita em fase de testes é o pudim em pó sem açúcar, mas com o mesmo sabor. 
 
“Só no Brasil, o mercado de leite condensado movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano. No mundo não é diferente. É uma sobremesa universal, que agrada a todos”, acredita ele, que aponta a segurança alimentar como principal aliada nas vendas ao exterior.
 
Joias de madeira
 
Da mesa para a moda. Com peças esculpidas a partir de pequenos blocos de madeira nobre reaproveitada de móveis e imóveis demolidos, a joalheira Janice Perez, dona dos Anéis Rudá, conquistou clientes na Europa, principalmente França e Itália. 
 
“Grandes lojas estrangeiras são atraídas pelo conceito de esculturas exclusivas e ecologicamente corretas”, diz Janice, que viu as vendas externas aumentarem 50% após a participação no Estethica, o braço verde da London Fashion Week (LFW), em fevereiro. “A partir dali, o mercado internacional se tornou o principal foco da marca”, revela.
 
A matéria-prima, pau Brasil, braúna, jacarandá e peroba, vem de mesas, armários e bancos antigos ou de vigas de telhados. Outro elemento que diferencia cada peça é a pedra, que pode ser hematita com rutilo, pirita, vanadinita, uvita ou lazurita. 
 
A embalagem também é sustentável, feita de alumínio reciclável e bucha vegetal. Cada anel, que consome em média três dias de trabalho, custa até R$ 1.800. 
 
Sucesso que é perseguido por Rafael Duarte, diretor comercial da Villa Café, um modelo de franquias para vender com exclusividade maquinário e café de primeira qualidade a restaurantes, supermercados e lanchonetes. No alvo, Chile e Uruguai. “Contamos com trabalho, suor e pouco financiamento”, queixa-se.
 
Consolidação leva até três anos
 
Segundo o coordenador do Núcleo de Atendimento ao Exportador da Central Exportaminas, Paulo Marcius, o prazo médio para uma empresa se consolidar em mercados externos é de três anos. No Estado, pouco mais de mil estão exportando. Ele diz que é preciso se preparar, com mudança de cultura, investimentos e esforço para obter certificação.