Home office. O que era apenas uma opção adotada por poucas empresas virou a única saída durante o isolamento social imposto pelo novo coronavírus para manter a atividade. E quem vê mais contras do que prós no fato de trabalhar em casa é bom ir se acostumando. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a tendência é a manutenção do modelo na fase pós-pandemia, mexendo de vez com as relações de trabalho. 

A pesquisa da FGV abrangeu 100 empresas em todo o país e mostra que a perspectiva é de aumento de 30% no número corporações que vão adotar o que a CLT chama de teletrabalho.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE (PNAD Contínua), em 2018 apenas 5,2% da força de trabalho no setor privado exercia as funções remotamente, ou seja, sem sair de casa,

A escolha pelo home office embute vantagens para os dois lados, mas também traz alguns pontos desfavoráveis, como constatou o professor André Miceli, coordenador do MBA em Marketing Digital da FGV. 

Irreversível

“É uma tendência irreversível, ainda que o Brasil não tenha uma cultura tão forte quanto a dos Estados Unidos, por exemplo. Mas que certamente vai ser acelerada a partir do que estamos vivendo. Além disso, a produtividade depende de uma estrutura adequada, e nem sempre é possível contar com uma internet de qualidade”, diz Miceli.

Entre as vantagens constatadas por ele está, acima de tudo, a economia de tempo com os deslocamentos de e para a empresa, especialmente nos grandes centros. E a possibilidade de não se prender ao chamado horário comercial, adequando a jornada ao período de maior produtividade do empregado, além das condições para uma maior qualidade de vida.

Os prejuízos principais identificados pelo estudo foram dois. “O home office dificulta a integração e a confiança do grupo uns nos outros. Não há o café, a possibilidade de conversar, conhecer melhor as pessoas, interagir de forma pessoal. Também fica menor a sensação de pertencimento à empresa, a capacidade de absorver seus valores, o que diz muito respeito ao ambiente corporativo. Algo que pode ser adequado com uma agenda de reuniões ou compromissos regulares na sede”. 

Para Miceli, a legislação atual é pouco abrangente, mas tende a ficar mais completa com o crescimento do trabalho remoto. “A prática e as questões que surgem dela vão fazer com que as leis se tornem mais amplas”, prevê.

Mais tempo, produtividade e alcance profissional

Quem está acostumado a trabalhar remotamente vê outras vantagens, desde que se adotem alguns cuidados. Caso do analista de sistemas Fernando Dilly que, de Belo Horizonte, presta serviços para uma empresa de São Paulo (Rede Brasil de Supermercados Associados) e outra na Grécia (EMD Infotech). Tudo do quarto de casa. Assim, criou um sistema de Gestão de Carreiras para uma rede de hotéis e resorts do país europeu.

“Se você não precisa de reuniões presenciais, basta ter uma internet que suporte o trabalho. É ideal ter disciplina e estar totalmente a par das tarefas a fazer. As reuniões podem acontecer online, por aplicativos, sem nenhum prejuízo à atividade. Eu posso acordar, tomar café tranquilo, entrar para o quarto, fechar a porta e iniciar. Economizo um tempo precioso ao não ter que me deslocar, correr o risco de pegar um engarrafamento. No meu caso, que trabalho com análise de sistemas e suporte, de casa estou no ambiente de dados da empresa. Além disso, não há a pressão do chefe no seu pescoço o tempo todo cobrando, e a produtividade acaba sendo maior”, explica. 

Ele confirma a observação do professor Miceli em seu estudo. “Eu sou totalmente favorável ao home office, desde que com a possibilidade de contato com os colegas de trabalho, o olho no olho. É importante a possibilidade de, pelo menos uma vez por semana, se ter uma reunião presencial ou trabalhar na empresa, quando é o caso”.