Desempregada, Cristina, que se recusa a dar o sobrenome, passa os dias pedindo dinheiro a frequentadores de uma agência do Banco do Brasil, na região Noroeste da capital. Aos 24 anos, mora com os dois filhos, de 6 e 4, e a mãe, que é cabeleireira e também sem ocupação, em um barraco de um cômodo em Esmeraldas, na Grande BH. 

A moça negra, que rechaçou ser fotografada pela reportagem, teve o cadastro no bolsa família cancelado no início do ano. Sem contar com a reedição do auxílio-emergencial, Cristina garante que fatura em torno de R$ 100 por semana em esmolas e que costuma parar na porta de supermercados, implorando aos clientes alimentos para as crianças. “É o que tem mantido a gente vivo”, diz.

Cristina representa um triste percentual: é parte de 38% das mulheres negras do país (até o ano passado, eram 33%) que integram a linha da pobreza (renda per capita de até meio mínimo) e da extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89), após a suspensão do auxílio-emergencial, em dezembro, e apesar de sua retomada em valores bem mais baixos, neste mês. 

O dado integra estudo divulgado na semana passada pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP). De acordo com as pesquisadoras Luiza Nassif-Pires, Luísa Cardoso e Ana Luíza Matos de Oliveira, responsáveis pelo trabalho, a quantidade geral de miseráveis brasileiros também deve ter um salto, neste segundo ano da pandemia.

A projeção é que o número total dos extremamente pobres, que em 2019 era de 13,9 milhões de habitantes do país, atinja 19,3 milhões (5,4 milhões a mais); e que o dos pobres passe de 51,9 milhões para 61 milhões (mais 9,1 milhões).

Para o economista Márcio Salvato, do Ibmec, mesmo renovado em um valor em média (R$ 250) abaixo da metade do teto pago no ano passado (R$ 600), o “coronavoucher” deve evitar danos ainda maiores à economia e à renda dos mais carentes. 

“O auxílio voltou para mitigar um problema que seria muito mais grave se ele não retornasse. Foi de forma tardia, mas veio”. Salvato destaca também que, embora o crescimento da pobreza e suas consequências sejam inevitáveis com o descontrole da pandemia, só a vacinação em massa trará alguma melhora da economia. “Indicadores de renda, educação e expectativa de vida vão cair. O hiato de pobreza, distância da renda ao limite que marca tal situação, também deve aumentar. Mas, se acelerarmos a imunização, o estrago pode ser menor”, ressalta.