Sem profissionalização, o Estado sofre com baixos ganhos de produtividadeMesmo sendo a principal bacia leiteira do país, Minas tem perdido cada vez mais importância na cadeia do leite brasileira. O índice de participação do Estado na produção nacional de leite caiu em todos os anos de 2001 a 2014, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa).

O amadorismo ainda é uma das principais razões para que a produtividade, medida pela quantidade de litros extraídos por animal, seja baixa. Especialistas do agronegócio explicam que, dentre outros fatores, não há sequer gestão de custos na maior parte das propriedades mineiras.

Dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), apontam que, de 2003 a 2013, a produtividade do rebanho mineiro saltou de 1.435 para 1.591 litros por animal por ano. Um aumento percentual de 10,8%.
 
Para efeito de comparação, no mesmo período, o Rio Grande do Sul elevou sua produção de 1.950 para 2.899 litros por animal por ano. Um crescimento de 48,6%.

Hoje, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), menos da metade dos 200 mil produtores mineiros têm acesso a uma estrutura de gestão profissional, que envolva controle efetivo dos custos totais de produção.

“Muitos produtores ainda não fazem uma gestão com números para tomarem a decisão mais acertada. No Sul do país, o clima favorável e a alimentação mais balanceada contribuem para a produtividade. No entanto, ainda fica a desejar se compararmos com países que possuem clima parecido, como Uruguai e Argentina, onde a produtividade é de 4.500 litros por vaca anualmente”, explica o analista de agronegócios da Faemg, Wallisson Fonseca.

Rebanhos

O rebanho bovino mineiro corresponde atualmente a 25% de todo o rebanho brasileiro, segundo levantamento da Seapa. No entanto, a representatividade no contexto nacional não garante alta produtividade ao setor leiteiro, conforme avalia o pesquisador de gado de leite da Embrapa Glauco Carvalho.

“Não adianta investir em genética se não houver alimentação adequada. Primeiro, o produtor precisa olhar a propriedade, ver os recursos disponíveis, planejar a alimentação do rebanho e em seguida investir em um rebanho que seja compatível com a realidade da propriedade”, explica.

Custos em alta e litro em baixa

A falta de profissionalização dos produtores mineiros gera reflexos no desempenho do leite também no mercado internacional. Mesmo com os investimentos realizados no setor por órgãos ligados à agricultura, ainda há muito o que melhorar, avaliam especialistas.

O coordenador de Bovinocultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), Feliciano Nogueira, explica que a produção leiteira mineira ainda não atende por completo aos parâmetros microbioló-gicos exigidos pelos países compradores.

“Para que nosso leite seja aceito, é preciso investir mais em sanidade animal, na higiene do ambiente onde o produtor está fazendo a ordenha. Associado a isso, há cuidados sanitários com o rebanho, com os equipamentos e o próprio pessoal que realiza o trabalho”, analisa Nogueira.

No entanto, o presidente da Cooperativa Agropecuária de Uberlândia, Cenyldes Moura Vieira, explica que os preços baixos pagos aos produtores e o custo elevado de produção têm frustrado o setor.

“Hoje, o preço médio ao produtor é 20% maior do que em 2015, mas os insumos subiram muito mais. A alta do milho, por exemplo, é de quase 50%. O cenário não tem incentivado o investimentos em tecnologia e dieta animal. Há baixa atratividade e o lucro é baixo”, explica Vieira.