No mesmo dia em que bares e restaurantes de Belo Horizonte finalmente voltaram a abrir as portas, após pausa forçada de praticamente cinco meses sem receber clientes, a divulgação de uma pesquisa do Sebrae, em parceria com a associação nacional que representa o segmento (Abrasel), evidenciou ainda mais a penúria desses estabelecimentos durante a pandemia. 

Segundo o levantamento, que ouviu cerca de 1.200 empresas do país entre o final de julho e o início de agosto, 85% tiveram queda de faturamento desde a chegada do novo coronavírus, sendo que 66% adotaram o delivery como principal estratégia de vendas. Além disso, em torno de 50% afirmaram ter reduzido jornadas ou suspendido contratos de funcionários.

Um dos aspectos mais graves, contudo, foi a confirmação do baixo acesso a crédito para capital de giro pelos negócios do setor, desde o início da crise. Metade dos bares e restaurantes tentou obter linhas especiais oferecidas por bancos públicos e privados, como o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), mas apenas dois a cada dez tiveram sucesso.

“A alimentação fora do lar é uma das atividades com maior concentração de empreendedores no país. Precisamos ampliar o acesso a crédito para que esses pequenos negócios consigam equilibrar o fluxo de caixa e contribuir para se adaptarem à forte demanda de digitalização verificada na pandemia”, afirmou o presidente do Sebrae Nacional, Carlos Melles. 

Sebrae Minas e Abrasel lançaram, ontem, o programa Prepara Gastronomia, com conteúdo e dicas gratuitas para o retorno dos empresários do ramo de bares e restaurantes 

Entre os motivos mais frequentes para a não obtenção de recursos, um dos destaques foi a incapacidade dos empresários de oferecer garantias de pagamento às instituições em meio à crise, na qual a maioria dos estabelecimentos viu o faturamento despencar em mais de 60%. Foi o caso do restaurante Cenáculo, em Lourdes, região nobre de BH e um dos muitos que reabriram as portas na capital, nessa segunda-feira.

“Tentamos o Pronampe no BNDES e em um banco privado, mas não nos informaram o motivo das recusas. Acreditamos que foi porque a empresa tinha menos um ano. Ou seja, consideraram que não podíamos dar garantias”, conta a proprietária Quédima Targino.

Se tivesse sido liberado, o dinheiro poderia ter impedido a dispensa de metade dos colaboradores de Quédima, pega de surpresa pelo decreto de fechamento, em março, poucos dias após alugar uma loja ao lado da sua para ampliar o atendimento. “Usamos a MP, mas tivemos que dispensar parte do staff”, diz.

Exceções foram poucas e segmento ainda depende de apoio

Apesar de a imensa maioria dos empreendedores do setor de bares e restaurantes não ter conseguido acesso a crédito desde março, houve casos de sucesso, como o do Saboreando, no Centro da capital. Ainda em julho, segundo a dona, Isabella Garcia, o estabelecimento conseguiu a liberação de recursos do Pronampe – integrando, portanto, os 20% de “privilegiados”da pesquisa.

“O empréstimo, de 30% do faturamento bruto, foi fundamental para segurarmos os funcionários, mesmo com férias, suspensões de contrato e reduções salariais”, afirma ela. 

O dinheiro também serviu para pagar fornecedores em um período no qual o lucro, apoiado apenas na venda de marmitex a domicílio ou para retiradas no local, caiu cerca de 60%. Além disso, foi possível, conforme Isabella, trocar de endereço. 

“Com o protocolo de reabertura que fala do distanciamento, que já sabíamos como seria, a loja anterior teria capacidade para apenas quatro mesas. Na nova, podemos trabalhar com 20”, explica.

Também há exemplos de quem não precisou de financiamento, mesmo com as dificuldades durante a crise. No tradicional Café Palhares – que, como milhares de outras casas, voltou a abrir para almoço em BH –, os donos mantiveram as contas equilibradas, mesmo com 75 dias de fechamento. 

“No primeiro mês, demos férias aos 16 funcionários. Depois, usamos a MP 936 e voltamos em junho, só com o delivery. Tínhamos uma reserva e isso ajudou bastante”, diz André Palhares, um dos donos. 

Sobrevivência 

Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, mesmo com casos assim, o todo o setor precisará de apoio. “Fomos um dos mais atingidos pela crise. Existe, do outro lado do rio, um futuro no qual acreditamos. Aqueles negócios que sobreviverem até dezembro, podem ter resultados melhores do que antes da pandemia. Essa travessia é o grande desafio, para o qual a obtenção de capital de giro será decisiva, uma vez que os primeiros meses de retomada ainda serão deficitários”, afirma.