As geadas dos últimos dias, principalmente na região Sul de Minas, esfriaram os ânimos dos produtores de café que comemoravam o recorde histórico da safra registrado no ano passado. O vice-presidente do Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG), Ricardo Schneider, acredita que a próxima safra deva ser bem menor por conta das intempéries climáticas. Em entrevista ao Hoje em Dia, ele Schneider diz que todas as lavouras da região sofreram com a queda nas temperaturas, mas que ainda é cedo para precisar os danos reais. 

Os produtores vão precisar tomar decisões importantes nos próximos meses: se aguardam para ver como vai ficar a lavoura ou se plantam novamente

 

As temperaturas estão baixas nos últimos dias, provocando geada em várias regiões produtoras de café em Minas. Como isso impacta as lavouras?

Tivemos um período longo sem a ocorrência de geadas, sendo que a última relevante foi em 1994. Tivemos seca, excesso de chuva, mas sem geada. Agora estamos enfrentando uma geada importante que vai impactar a produção do café. Ainda é cedo para dizermos qual o impacto, a extensão dos danos. Na semana passada, visitei algumas lavouras para ver in loco a situação e foi um impacto geral. Todas as regiões que visitei no Sul de Minas sofreram. Isso, certamente, vai causar redução na produção e já causou uma movimentação nos mercados com alta de preços. Mas qualquer número que se falar agora é precoce. 

N/A

Já existem novos alertas de outra onda de frio. Os produtores estão preparados? 

Os alertas são de uma nova frente fria para o fim do mês. O produtor, infelizmente, não tem muito o que fazer. Quando o frio vem, não existe nada que possa ser feito neste momento para impedir a geada. O que aconteceu, nos últimos anos sem geada, foi uma migração da lavoura para áreas mais baixas. Normalmente, o produtor costuma plantar nos locais mais altos porque a chance de frio é menor. Com os invernos amenos dos últimos anos, a decisão foi plantar em baixadas por conta da facilidade do manejo, onde a mecanização funciona melhor. O que percebemos foi um movimento de aproveitamento de espaço. Essas áreas mais baixas são mais suscetíveis à geada e o frio foi muito intenso nos últimos dias. O que pode acontecer é que, talvez, alguns produtores que tiveram perdas maiores possam repensar a plantação nessas áreas. 

O café está saindo da origem e indo para os países consumidores. O consumo vem aumentando também. Só o mercado brasileiro gerou R$ 27 bilhões no ano passado

No ano passado foi a seca que prejudicou as lavouras. Segundo a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, alguns produtores chegaram a perder 100% das lavouras de café. Como lidar com esses fenômenos naturais? 

A cafeicultura e todo o agronegócio estão sujeitos a esses impactos. O que acontece com o café é que ele tem uma característica de bienalidade, que é histórica, ou seja, um ano com produção mais alta e um ano com produção mais baixa. Essa bienalidade foi sendo equilibrada com a evolução do trato. Os produtores passaram a fazer o manejo nas suas fazendas mantendo uma produção mais estável, com parte da lavoura em plena produção, parte com trato mais agressivo e parte crescendo, isso dá uma estabilidade e otimiza o uso de maquinário. As condições climáticas para a safra que foi colhida no ano passado foram excepcionais. Lembrando que a colheita começa no fim de abril e se estende por até seis meses. A safra de café do ano passado foi recorde, com 63,08 milhões de sacas no Brasil. Depois de uma safra tão grande é normal uma queda de produção. No fim do ano passado tivemos uma seca, a chuva demorou para chegar. Por isso, foi preciso um trato nas lavouras mais agressivo. Quinze por cento do parque cafeeiro já tinha passado pelo esqueletamento, que é passar a máquina e podar parte da árvore. Como a chuva demorou muito, em outubro ainda não tinha começado a chover, vários produtores decidiram ampliar esse trato mais agressivo. O produtor age muito rápido, a cafeicultura é muito tecnológica, o agronegócio no Brasil é muito avançado. Com isso, neste ano nós tivemos uma colheita menor do que era esperado nessa bienalidade, com estimativa de 46 milhões de sacas. 

N/A

E a geada de agora piora o cenário? 

Quando tem uma geada e o produtor perde 100%, ele tem que tirar a lavoura e plantar tudo de novo e começar do zero. As plantas que sofreram mais são as mais jovens porque têm uma estrutura mais fraca. Em muitos locais, os produtores relataram que houve a chamada geada de capote, que atinge só o topo das árvores. As árvores mais maduras sofrem, mas resistem. Por isso, os produtores vão precisar tomar decisões importantes nos próximos meses, se aguardam para ver como vai ficar a lavoura ou se plantam novamente. Eles devem aguardar essa nova frente fria e analisar os danos reais. Toda a cadeia está preocupada com essa situação, mandando homens a campo, buscando informações. 

Os cafés especiais são uma tendência e esse mercado vai continuar crescendo, mas ainda representa uma parcela muito pequena. Os cuidados com a lavoura para café melhores são maiores, e, consequentemente, os investimentos também 

Em compensação, as exportações estão em alta. É para comemorar?

Não dá para desconsiderar as perdas que os produtores vão ter neste ano. Mas a gente vem em uma sequência de preços muito bons. O mercado sempre olha para períodos maiores. Se nos basearmos em apenas um ano é arriscado. Por isso, é importante analisar safra de dois ou três anos para ter uma média. A safra do ano passado está sendo comercializada agora, muitas sacas ainda estão sendo exportadas. Se somarmos a safra do ano passado com a deste ano, teremos uma safra média boa, que atende às demandas de consumo mundiais. No ano passado tivemos uma alta, movida pela alta do dólar e o medo de uma safra menor que movimentou o mercado. O preço da saca hoje está perto de R$ 1 mil para cafés mais finos. 

No ano passado as exportações de café bateram recorde?

As exportações de café do Brasil atingiram recorde de 44,5 milhões de sacas no ano passado. Isso é reflexo de uma produção boa, alta, e de preços justos. O café está saindo da origem e indo para os países consumidores. O consumo vem aumentando também. Só o mercado brasileiro gerou R$ 27 bilhões no ano passado. O consumo mundial deve ultrapassar 166 milhões de sacas no ano cafeeiro 2020/2021. Tudo isso por conta da qualidade, que é um grande catalisador de aumento de consumo. Mas não acredito que neste ano vamos conseguir repetir os números do ano passado por conta da safra menor. 

Qual a expectativa para a safra de 2022? 

Existia uma expectativa de uma safra novamente grande, mas tivemos um pouco de seca no começo deste ano, com poucas chuvas no outono que ajudariam a reduzir o déficit hídrico nas lavouras e agora as geadas. Não dá para fazer uma previsão ainda. É preciso esperar acabar esse período. 

E como está a área plantada de café em Minas? 

O parque cafeeiro segue estável, mas com crescimento constante. Existem alguns produtores que migram para outras culturas, outros utilizam parte da área para uma outra cultura, mas o café é uma cultura de tradição. A cultura do café é complicada, diferente de outras commodities em que você produz e vende e começa um novo ciclo. O café é plantado em um ano, o produtor vai esperar uns dois anos para ter a primeira produção ainda pequena, no terceiro ano é que começa uma produção mais forte, ou seja, as mudanças no café são mais lentas. 

Setenta e oito por cento do café no Brasil vem da agricultura familiar. Como estão os incentivos? 

O café realmente é uma cultura muito tradicional, principalmente em nosso Estado. O Brasil tem uma cultura de apoio ao agronegócio. Existem linhas de crédito disponíveis e específicas para o agronegócio e o produtor tem feito uso dessas linhas de crédito, e um bom uso. A cafeicultura em Minas está evoluindo muito tecnologicamente; migrando, sempre que possível, para tratos de forma mais mecanizadas; a colheita mecânica é amplamente difundida; o controle de uso de defensivos é muito bem feito, até porque o mercado internacional fica de olho nessa questão. 

Houve crescimento de cerca de 30% no faturamento com a venda de cafés orgânicos certificados. É uma tendência?

Os cafés especiais são uma tendência e esse mercado vai continuar crescendo, mas ainda representa uma parcela muito pequena. Os produtores investem bastante, colocam os pés de café em áreas mais específicas para darem um produto com notas melhores. Os cuidados com a lavoura para café melhores são maiores, e, consequentemente, os investimentos também.

Leia mais:
Com 25% dos produtores registrados no país, vinho mineiro obtém qualidade internacional