Transformação digital orienta mercado de trabalho em 2022

João Sampaio
jsampaio@hojeemdia.com.br
07/01/2022 às 20:40.
Atualizado em 10/01/2022 às 02:02
 (Robert Half/Divulgação)

(Robert Half/Divulgação)

As melhores oportunidades de trabalho em 2022 estarão atreladas ao processo de retomada da economia e reforço de infraestrutura para suportar os novos modelos de trabalho e hábitos de consumo. A constatação é da executiva Erika Moraes, Branch Manager, responsável pela operação da Robert Half em Belo Horizonte e região. Fundada em 1948, a Robert Half é a maior empresa de recrutamento do mundo, com mais de 300 escritórios na América do Norte, Europa, Ásia, América do Sul e Oceania. Como dica para quem busca uma oportunidade, a executiva sugere constante atualização, atenção ao currículo e, principalmente, construção da rede de contatos. “Não é exagero afirmar que as melhores oportunidades de negócio e carreira são frutos de networking”, diz.

A pandemia sacudiu o mundo do trabalho. Um exemplo é que o home-office, o trabalho híbrido e os coworkings, até então tidos como excentricidades, foram adotados em larga escala.  Passados dois anos, como está se desenhando o mundo do trabalho a partir de agora? Já dá para saber quais mudanças vieram para ficar e quais se mostraram passageiras?
Sem dúvidas, vivemos um período desafiador nos últimos anos, nos reinventando e nos adaptando às novas condições impostas pela pandemia. Isso trouxe uma série de transformações ao mercado de trabalho e muitas delas vieram para ficar. Uma delas é a questão do trabalho. A necessidade de adoção desse modelo de trabalho – de uma hora para outra - fez as empresas se adaptarem estruturalmente, com a transformação de sua infraestrutura digital, sistemas e toda a aparelhagem de TI e Telecom, além de modernizarem seus modelos de gestão. Com as equipes à distância, os negócios passaram a ser geridos com foco muito maior em indicadores operacionais de produtividade capazes de demonstrar a eficiência de cada departamento, possibilitando uma verdadeira gestão remota. O novo modelo de trabalho, com as adaptações ao formato híbrido, também permitiu um planejamento e gestão de pessoas mais organizado. A priorização do online demandou do corpo diretivo das empresas e das lideranças de modo geral uma maior aproximação e aumento do espaço de diálogo entre empregadores e colaboradores para definir como criar a melhor experiência de trabalho. Cada pessoa se relaciona com o trabalho remoto de uma maneira muito particular, e a melhor forma de lidar com essas peculiaridades é por meio do diálogo aberto e da inclusão do colaborador. O que permitiu a construção de um ciclo maior de confiança entre gestores e equipes e um maior ganho de eficiência e produtividade às empresas.

Um levantamento feito pela Robert Half e divulgado no final do ano passado apontou que os segmentos da mineração, construção, siderurgia e tecnologia serão os mais aquecidos em 2022, enquanto as áreas de engenharia, tecnologia da informação, supply chain (compras e logística) e contabilidade vão liderar as contratações. Como a pesquisa chegou a essas conclusões e o que elas significam tanto para o funcionário já empregado como para quem está em busca de uma oportunidade?
Sim, esse estudo é o Guia Salarial 2022 da Robert Half, que já está em sua 14ª edição e pode ser consultado na íntegra em nosso site. Este guia foi feito com base em várias pesquisas realizadas pela Robert Half em 2021, além de refletir a realidade de vagas e informações das salas de entrevista. Nossa principal constatação ao longo deste estudo foi de que em 2022 as profissões mais demandadas continuarão atreladas ao processo de retomada da economia e reforço de infraestrutura para suportar os novos modelos de trabalho e hábitos de consumo. A transformação digital foi uma máxima do mercado ao longo dos últimos dois anos e as indústrias, de modo geral, abraçaram os processos de inovação e desenvolvimento. Como resultado, todas as profissões como tendência para o futuro absorvem o impacto da tecnologia nas relações de trabalho e demandam amadurecimento na análise de dados, facilidade na operação de sistemas e um maior entendimento das ferramentas digitais disponíveis. Vale destacar aqui a parte de estrutura de compras e abastecimento e, sem dúvida nenhuma, as posições de vendas e desenvolvimento de negócios. Estamos falando aqui de desenvolvimento comercial com foco em novos negócios, novas frentes de atuação, lançamento de produtos e abertura de unidades de negócios. No universo de finanças e contabilidade, seguimos falando de uma maior necessidade de planejamento, ou seja, do aumento de áreas estruturadas de planejamento financeiro, captação de recursos e investimentos, bem como do setor de controladoria, que faz a gestão de todos os números dentro dessas áreas.

A pesquisa da Robert Half apontou também que a maior parte dos recrutadores (69%) acredita que encontrar colaboradores qualificados será cada vez mais difícil. Que leitura deve ser feita a partir desse dado?
Apesar dos altos índices de desemprego no Brasil, essa percepção dos recrutadores está ligada à dificuldade das empresas em encontrar candidatos com as capacidades técnicas e comportamentais ideais para as vagas disponíveis. Neste momento de recuperação e reestruturação do mercado, existe uma verdadeira guerra de talentos em curso pelos profissionais mais preparados que, com a quebra de barreiras geográficas possíveis no contexto de trabalho remoto, encontram boas oportunidades dentro e fora do país. Para as empresas, apostar no desenvolvimento dos colaboradores com objetivo de fazê-los crescer no negócio gera um ciclo produtivo e benéfico, que funciona não só para a retenção, mas para a atração de profissionais qualificados. Para os profissionais, o aprimoramento de conhecimentos e competências é fundamental para manter-se competitivo no mercado de trabalho, enquanto o desenvolvimento de novas habilidades pode ser a oportunidade de mudar a rota profissional.

A área de TI (Tecnologia da Informação) vive atualmente um boom de vagas de um lado, com um apagão de outro. Não há profissionais em número suficiente para tantas vagas. Isso tem levado a situações inusitadas, como por exemplo empresas desse segmento considerarem a contratação de pessoal mesmo sem a formação superior. Isso é uma tendência ou caso isolado? Qual a saída?
Com certeza a área de tecnologia é hoje a que apresenta as melhores perspectivas salariais e de contratação, dada a escassez de talentos e a facilidade de adaptação ao trabalho remoto. Costumamos dizer que são os profissionais que estão com a faca e o queijo nas mãos! Essa é uma tendência que deve se manter em 2022, em função das perspectivas de mercado que apresentamos anteriormente. Os profissionais de TI são essenciais para empresas de todos os segmentos, seja para atender às demandas de clientes cada vez mais digitalizados, como para prestar suporte à operação de times internos que atuam de forma remota pela tendência do trabalho home office. Além disso, a pandemia também permitiu que os processos seletivos se tornassem mais ágeis e eficientes, levando os melhores talentos a participarem de vários processos simultaneamente, aumentando a concorrência por esses profissionais. Esse movimento exige atenção das empresas em busca de boas estratégias de atração e retenção, para evitar a perda dos melhores talentos para a concorrência. Com o passar dos anos, no entanto, existe uma propensão de que a oferta de profissionais aumente diante de novos cursos e oportunidades de formação, regulando a demanda para este setor. É um movimento similar ao que ocorreu com o segmento de engenharia há alguns anos.  

Em termos de salários, o que pode ser apontado como tendência para este ano? Quais funções estão em alta e quais estão em declínio?
Os setores em alta no país são Tecnologia, Bens de consumo, Varejo, Agronegócio e Logística. Vale destacar também as startups de diferentes segmentos. Quando falamos especificamente de Minas Gerais, vemos um crescimento muito grande da demanda por profissionais das áreas de engenharia e operações desde agosto de 2020, com um aumento de salários de 20% a 30%.  Esse quadro é alavancado pela força da indústria da mineração no Estado e deve se manter em 2022. É importante dizer também que o bem-estar e a qualidade de vida, assim como o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, entram cada vez mais nessa equação, ganhando uma proporção importante em processos seletivos. Nesse sentido, os benefícios no trabalho têm muita relevância na hora de compor o pacote de remuneração. Essa situação requer que as empresas estejam atentas às suas ofertas e revejam seus pacotes de remuneração e benefícios para que seja possível atrair os melhores talentos do mercado.

Muito se fala hoje em dia na predileção do mercado por profissionais que tenham tanto habilidades hard skills (técnicas) como soft skills (comportamentais), diferente do passado em que havia uma certa divisão entre quem pensava e quem executava. O que explica essa guinada?
Já faz algum tempo que as chamadas soft skills vêm destacando profissionais no mercado de trabalho e ganhando força nos processos seletivos. Mas não há dúvidas de que a pandemia contribuiu significativamente para a potencialização desse processo. É impossível separar as profissões hoje apenas entre planejamento e execução. A todo momento os colaboradores são instigados a refletirem sobre o trabalho que estão realizando e acessarem suas habilidades socioemocionais. A boa comunicação, por exemplo, é extremamente importante para todos os profissionais de uma organização. O ato de saber ouvir e se comunicar de forma clara e objetiva, assim como escrever bem, permite a você organizar melhor os pensamentos, além de compartilhar e absorver melhor as informações. A adaptabilidade e a flexibilidade são duas das soft skills mais valorizadas no mundo atual, diante da velocidade das mudanças às quais estamos submetidos. As companhias valorizam o colaborador capaz de manter suas atividades em funcionamento e se reinventar mesmo em momentos de crise. Também foram apontadas no Guia características como perfil analítico e visão estratégica; senso de dono e visão de negócios. Por fim, vale dizer também que não dominar um segundo idioma, principalmente o inglês, é barreira de contratação de ótimos profissionais com excelentes habilidades técnicas e comportamentais. Falar inglês é essencial, pois as empresas estão cada vez mais conectadas globalmente, buscando talentos dentro e fora do país.

Como as empresas em geral devem se preparar diante do reconhecimento da Síndrome de Burnout como doença ocupacional, a partir deste ano, pela OMS (Organização Mundial da Saúde)? No caso dos funcionários, o que isso sinaliza?
Os últimos dois anos demonstraram que as empresas e lideranças devem apoiar seus colaboradores a identificar e prevenir fatores que levam ao burnout antes que a condição esteja instalada. Na visão de 53% dos executivos entrevistados em uma das pesquisas do Guia Salarial, seus colaboradores estão mais suscetíveis a crises de estresse, ansiedade e burnout. Os principais gatilhos são as cargas mais pesadas de trabalho, medo da demissão, pressão por resultados, equipe reduzida e home office com filhos. Nesse sentido, as empresas devem apoiar os seus colaboradores a buscarem equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, com a oferta de jornadas flexíveis, quando possível, e com atenção dos gestores ao volume de horas trabalhadas, para que não sobrecarregue suas equipes. Vale, por exemplo, checar a necessidade de avaliar a contratação de profissionais por projetos para apoiar a equipe. Além disso, é possível criar programas estruturados de incentivo ao bem-estar, mantendo uma comunicação aberta com os colaboradores, e incentivando estilos de vida mais saudáveis.

Para finalizar: que aconselhamentos poderiam ser dados a quem está nesse momento desempregado e em busca de uma colocação no mercado de trabalho? O que fazer e o que não fazer para aumentar as chances de empregabilidade?
A principal dica àqueles profissionais que buscam uma recolocação é de que tenham claros seus objetivos profissionais e procurem maneiras para se manterem atualizados desenvolverem novas competências para sair na frente da concorrência nos processos seletivos. Além disso, não é exagero afirmar que as melhores oportunidades de negócio e carreira são frutos de networking. É claro que não dá para sustentar uma trajetória profissional apenas com indicações, mas vale a pena investir no seu desenvolvimento enquanto se cerca de pessoas que te inspiram, motivam ou auxiliam a ser melhor, como pessoa e profissional. Um currículo atrativo também é essencial. O documento deve ter no máximo duas páginas, um design limpo, um português correto e destacar suas principais conquistas e experiências profissionais.

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