A crise econômica está mais aguda no Barreiro. Região economicamente autônoma de Belo Horizonte, com indústrias e comércio próprios, o Barreiro enfrenta o problema adicional da redução das atividades da siderúrgica Vallourec (ex-Mannesmann), maior indústria instalada na capital.

A Vallourec está encerrando a produção de aço em seus dois altos fornos, que será transferida para a nova unidade de Jeceaba da Vallourec Sumitomo. A consequência disso é corte de empregos e queda no faturamento do comércio e serviços.

Essa ação em cadeia reflete os números da economia mineira e brasileira de 2015, apresentados pela Fundação João Pinheiro e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), respectivamente, nos últimos dias.

Temor

Na região, o temor de comerciantes é que a crise econômica que já abala o país há dois anos seja ainda mais severa quando a Vallourec encerrar a produção de aço. Ainda em 2016 um dos dois altos fornos será desativado e, até 2018, o outro alto forno também deixará de funcionar, assim como a aciaria. No entanto, no local ainda haverá laminação e acabamento dos tubos de aço. A empresa estima que 200 empregos sejam cortados.

O proprietário da loja “Belô Móveis”, Francisco Xavier dos Santos, 76 anos, abriu seu negócio em 1978, e garante que essa é a pior crise que já enfrentou. Até 2014, ele vendia mobiliário em quatro lojas e galpões que somavam 980 metros quadrados e, agora, ocupa apenas um galpão, com 400 metros quadrados. “A Mannesmann começou com a reduzir custos com terceirização, e depois com demissões. E quando parar a produção vai ser ainda pior”, avalia.

A “Belô Móveis” fica na rua Afonso Vaz de Melo, uma das mais movimentadas do comércio no Barreiro e, próximo a ela, há pelo menos três outras lojas grandes com as portas fechadas e cartazes de aluga-se.

Em outra rua movimentada, a Visconde de Ibituruna, uma loja de eletrodomésticos não atinge a meta de vendas há mais de um ano. De acordo com o gerente, que preferiu não se identificar, apenas as vendas de aparelhos celulares têm apresentado bom desempenho.

Com a dificuldade em pagar a loja que alugava por R$ 2,2 mil mensais, a vendedora Lídia Goulart, 33 anos, resolveu tomar uma atitude extrema: passou a vender a mercadoria na rua. “Não conseguia pagar. Estava muito caro, e ninguém compra nada lá. Na rua está melhor”, avalia.

 

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Sem conseguir pagar o aluguel, Lídia passou a vender nas ruas

Qualidade e atendimento

Um dos comerciantes mais antigos do Barreiro, Divino Olímpio Pereira, 75 anos, é dono de uma loja de calçados e artigos esportivos que estampa seu nome. Nos bons tempos da Mannesmann, o funcionário que chegasse à loja uniformizado, ou apresentasse o crachá, já tinha facilidade de crédito.

Hoje, Divino é otimista. Ele avalia que o Barreiro já apresenta uma dinâmica própria, e aposta no diferencial de sua loja para manter a clientela, mas reconhece que pode perder vendas com a mudança na produção da Vallourec. “A mudança não deixa de prejudicar a gente, né? Mas tenho muitos clientes amigos. Acredito que, se forem embora para Jeceaba, podem até voltar para comprar aqui. Temos como diferencial a qualidade, o bom atendimento e o preço”, destaca.

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Divino, um dos mais antigos do comércio do Barreiro, não se sente ameaçado

Nesses dois primeiros meses de 2016, Divino diz que as vendas foram melhores do que no mesmo período de 2015, mas piores do que em anos anteriores. Para conseguir esse resultado, a loja fez promoções com produtos que normalmente não tinham descontos. No entanto, teve que dispensar dois dos oito funcionários.

Além disso, uma vantagem que ele tem é a de não pagar aluguel. Atualmente, Divino está mais afastado dos negócios, que estão a cargo de seus filhos, Rodrigo, Fabrício e Fernanda.