Jeceaba - A expectativa era que a inauguração da unidade da Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil (VSB), em 2011, elevasse a pequena Jeceaba, cidade de 6 mil habitantes no Campo das Vertentes, à categoria de polo siderúrgico. Mas o desenvolvimento esperado ainda não chegou. E para um enorme contingente de desempregados que se formou na cidade nos últimos anos e vários empresários sem retorno dos investimentos feitos, a euforia deu espaço à descrença.

A empresa – que produz tubos sem costura com foco principal no mercado petrolífero – aportou R$ 5 bilhões para montar um complexo siderúrgico na cidade. Logo que chegou, gerou 4 mil empregos indiretos na construção do empreendimento e colaborou para uma arrecadação da prefeitura de R$ 3 milhões ao mês. 

Os números serviram como um sinal de que a cidade seguiria nos trilhos do desenvolvimento, atraindo trabalhadores e empresários de várias regiões. 

Mas, com o fim das obras, a situação mudou. A empresa não conseguiu alcançar os resultados esperados e parte dos 4 mil trabalhadores, alguns de outros municípios, ficou sem emprego. A fábrica mantém 2.500 funcionários na produção.

Já a arrecadação do município foi caindo a ponto de, neste ano, ficar em R$ 800 mil mensais, três vezes menos do que a média anterior. E quanto à economia local? Basta uma volta rápida pela cidade para ter essa resposta. 

Vários pontos comerciais, que antes abrigavam negócios de diferentes perfis, hoje estão fechados e com placas de “aluga-se”. E as empresas que resistiram precisam conviver com a baixa demanda. 

A desesperança nas ruas é nítida em cada esquina e tem rosto. Como o do Cristiano José Delfino, de 31 anos, que está desempregado há seis meses e agora não vê outra saída a não ser mudar de cidade. “A situação está muito difícil. Acabaram os empregos”, lamenta. Mesmo sentimento de vários outros moradores que, sem ocupação, lotam esquinas, bares e a praça central da cidade em pleno horário comercial. 

Hoje, várias lojas estão fechadas e o número de desempregados cresce a cada dia no município

Comércio busca alternativas para driblar a crise e recuperar investimentos na cidade

Para pegar uma carona no desenvolvimento esperado para Jeceaba, Marcelo Jorge Dias inaugurou o Hotel e Restaurante Dias após a chegada da Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil (VSB) à cidade. Da mesma forma, muitos outros empresários investiram no mercado local e até hoje não tiveram retorno. Alguns operam no vermelho à espera de dias melhores. 

Marcelo não tem noção ainda de quando terá de volta, ao menos, o que já gastou. Mas até que chegue esse momento, busca alternativas. Começou agora a revender botas no restaurante. “A gente tem que sobreviver, né? Vamos tentando”, diz.

Quem já estava no mercado também gastou para ampliar os negócios. Afinal, tudo indicava que as vendas iriam “nas alturas”. 

O Supermercado Boni, por exemplo, deixou de ter duas portas e com uma ampliação passou a ter quatro. O dobro de espaço, de mercadorias e de funcionários. Nos tempos áureos de construção da fábrica, o supermercado chegou a ter 22 funcionários. Hoje, são apenas seis sócios que “tocam” o empreendimento como podem. Boa parte das prateleiras está vazia e os caixas com placas indicando que estão fechados.

No comércio, a sensação é de quase depressão. Os lojistas fazem o que podem para tentar atrair a clientela. As promoções estão estampadas nas vitrines de lojas vazias.

“Está muito fraco o movimento. Cada dia mais difícil de vender”, lamenta a proprietária da Super Fashion, loja de roupas localizada bem no centro da cidade que possui peças com 50% de desconto. Na Moda Show, comércio de mesmo perfil, a situação é idêntica. “Só consegue manter as portas abertas aqui quem tem cômodo comercial próprio. Porque não dá para pagar aluguel”, afirma a proprietária, Laudiene dos Santos.

Laudiene, inclusive, tem um cômodo disponível para locação, que abrigou uma lanchonete e uma loja de roupas nos últimos meses. Ambas fecharam. 

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