Durante pronunciamento que durou mais de 40 minutos, na tarde desta sexta-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro afirmou estar decepcionado com Sergio Moro, que anunciou mais cedo a saída do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O presidente reafirmou que nunca tentou interferir em investigações da Polícia Federal (PF). Disse que as acusações feitas pelo ex-ministro são torpes e tentou diminuir a versão apresentada pelo ex-magistrado em coletiva. O discurso foi acompanhado por panelaços em vários bairros de Belo Horizonte. 

 

“Nunca pedi para que a PF me blindasse onde quer que fosse”, disse o presidente, acompanhado de seus outros ministros. Quase todos estavam bem próximos e sem uso de máscaras, conforme recomenda o Ministério da Saúde. Apenas o ministro da Economia, Paulo Guedes, acompanhou o pronunciamento com o equipamento de segurança que evita a disseminação de Covid-19. 

No detalhado relato de Bolsonaro, há uma acusação de que Moro teria tentado negociar uma indicação para o quadro do Supremo Tribunal Federal. De acordo com o presidente, nessa quinta-feira (23), ele ligou para o então ministro para anunciar que o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, seria exonerado. Segundo Bolsonaro, Moro teria dito para esperar até novembro pela exoneração, para que fosse feita depois da indicação de seu nome para a corte máxima do Judiciário. Após o pronunciamento, Moro negou a acusação. 

Em vários momentos de sua fala, Bolsonaro reforçou o que já havia dito anteriormente nas redes sociais: que a indicação do cargo de diretor-geral da PF é feita pelo presidente da República. Ele não explicou o porquê de seu desejo em retirar Valeixo do cargo, mas afirmou que o diretor já teria manifestado desejo em deixar o cargo desde janeiro.

Bolsonaro disse que, desde o início do mandato, ficou acertado que Moro teria autonomia, mas não soberania. “Acertamos como fiz com todos os ministérios. Vai ter autonomia no seu ministério, mas não soberania. Falei para ele do meu poder de veto, se daria sinal verde”, afirmou o presidente.

"Oras bolas, se posso colocar um ministro, por que não posso trocar um diretor da Polícia Federal?", disse Bolsonaro, confirmando que gostaria de ter um diretor na PF com quem "pudesse interagir". Afirmou ainda que, enquanto Moro se preocupa com a própria biografia, ele e seus ministros se preocupam com o futuro da nação. 

Queiroz e Marielle

O presidente abordou vários assuntos durante o pronunciamento. O caso do assassinato de Marielle Franco foi o que ganhou maior destaque. Bolsonaro fez questão de dizer que solicitou à polícia que investigasse melhor o caso do porteiro que citou seu nome durante a investigação sobre a entrada de Ronnie Lessa no condomínio onde mora o presidente, no dia do crime, em 2018.

Ele falou também de Fabricio Queiroz, investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flavio Bolsonaro, enquanto o filho do presidente era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Disse que conhece Queiroz desde 1984 e fez amizade com ele. “Mas o que porventura ele tenha feito, que responda pelos seus atos”, afirmou Bolsonaro, dizendo que Queiroz lhe pediu empréstimo e pagou com cheques. “Sempre que uma pessoa porventura faz algo de errado do nosso lado, logo é responsabilizado”, afirmou o presidente, reiterando que nunca pediu blindagem para ele ou para qualquer de seus filhos. 

Bolsonaro chegou a admitir que mandou "implodir" o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), para que não houvesse onerações ao povo brasileiro, e que nunca cercearia o direito de ir e vir de ninguém - fazendo uma referência a sua própria postura em não seguir o isolamento social recomendado para evitar o avanço da Covid-19.