O governo brasileiro, em especial a presidente Dilma Rousseff, deve ler com atenção o discurso de Barack Obama, feito na última sexta-feira, em que afirma que não haverá mais espionagem de chefes de Estado e de governo de nações amigas e de aliados, a menos que haja forte razão de segurança nacional.
 
Não é leitura árdua. A transcrição do discurso em inglês não tem mais do que 5.462 palavras, em nove páginas espaço simples. Apenas 431 linhas. É uma lição valiosa sobre como a nação mais poderosa do planeta se defende dos inimigos.
 
Na oitava página, faltando seis parágrafos apenas para concluir o discurso, talvez a presidente brasileira reconheça uma clara alusão a ela, embora Obama tenha tido o cuidado de não mencionar nomes de autoridades. Ele afirma que não vai se desculpar simplesmente porque os serviços de inteligência de seu país são mais eficientes do que os dos outros países.
 
O presidente dos Estados Unidos deixa claro que as agências de espionagem vão continuar reunindo informações sobre as intenções de governos em volta do mundo, do mesmo modo que fazem os serviços de inteligência de cada uma das outras nações. Nesse ponto, Obama parece muito obsequioso com os arapongas brasileiros. Pois, se nossos serviços de inteligência fazem algo parecido, o fazem tão secretamente que ninguém sabe.
 
A impressão é que o governo brasileiro está bastante desguarnecido nessa área. Ensina Obama que o ponto principal da inteligência é obter informação que não está publicamente disponível. Algo bem diferente de recortar notícias de jornais.
 
Desde o fim da ditadura militar, observa-se má vontade dos governos brasileiros com seus serviços de espionagem. Por vários anos, eles se dedicaram a atividades que Obama, em seu discurso, condena: a busca de informação para suprimir crítica ou oposição ao governo. Ou para pôr pessoas em desvantagem, em razão de sua etnia ou raça, gênero e orientação sexual ou crenças religiosas. Como se sabe, por um longo período, a atividade foi orientada no Brasil para caçar “subversivos” ou comunistas.
 
Obama vai coibir o uso dos serviços de inteligência para beneficiar empresas americanas, uma preocupação revelada por membros do governo brasileiro por ocasião do leilão do pré-sal. Ele promete também, sem citar nomes, não espionar chefes de nações amigas, a não ser em casos de forte razão de segurança nacional. Até que se demonstre o contrário, o Brasil está incluído entre os aliados dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. Portanto, não haveria o que temer dos espiões norte-americanos que se dedicam atualmente, conforme Obama, a esse combate.
 
O presidente inicia seu discurso lembrando que os primeiros espiões nos Estados Unidos tinham como alvo os ingleses. Os inimigos mudaram, mas não a disposição de espionar.