A repercussão internacional das queimadas na região amazônica brasileira ameaça, não só a imagem do país no exterior, mas também a economia e as relações internacionais. Esta é a percepção de entidades ligadas ao agronegócio em Minas. O recém-acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul, por exemplo, que poderia abrir o mercado europeu para as exportações brasileiras, pode não ser homologado, como já ameaçou o presidente da França, Emmanuel Macron. 

Neste contexto, Minas Gerais que, somente no primeiro semestre deste ano, registrou um aumentou em sua receita de 17% na exportação de carnes, movimentando US$ 370 milhões, segundo dados da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), pode sofrer as consequências mesmo tendo como principal comprador de suas carnes a China. 

"Naturalmente, os asiáticos, que são os grandes compradores de Minas, estão fora desta campanha que foi lançada pelo Macron e que ameaça a entrada de carne brasileira no mercado europeu, mas cientes de que, com o aumento das ofertas, poderão barganhar preços, nosso produto pode acabar desvalorizado no mercado internacional", opina o diretor do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Carnes e Derivados e do Frio de Minas Gerais (Sinduscarne), Cássio Braga, também empresário do ramo, dono da marca Tropeira Alimentos. 

A tendência é que, com isso, os preços da carne no mercado interno possam subir para haver uma compensação. Mas o subsecretário de Política e Economia Agropecuária da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, João Ricardo Albanez, lembra que essas percepções são apenas especulações. 

"A pressão, por enquanto, é midiática. Mas vejo com preocupação essa repercussão. Embora no caso das carnes os nossos principais clientes estejam na Ásia, as informações como estão sendo divulgadas colocam o país como um vilão nas queimadas da Amazônia e isso não é bom para a nossa imagem. As negociações não são feitas do dia pra noite, claro, mas isso isso pode vir a afetar mercados e preços futuros e fazer com que o comprador comece a desvalorizar os nossos produtos", explica.  

Diversidade econômica 

O analista de Agronegócio da Faemg, Wallinsson Lara, defende o que chama de responsabilidade e sustentabilidade mineira do setor, e acredita que a veiculação das notícias sobre as queimadas são exageradas. 

"Estamos seguros que estamos no caminho certo, não pode ser uma inverdade que vai jogar tudo por água abaixo, um trabalho de 20 anos [para celebrar o acordo entre UE e Mercosul] que envolveu muito estudo técnico e científico. Essa veiculação de agentes externos é irresponsável. O agronegócio mineiro, em todas as suas áreas, é altamente competitivo e isso incomoda. Isso [repercussão internacional das queimadas] pode atrapalhar o início destas exportações", comenta. 

Por outro lado, ele cita como ponto positivo neste cenário a diversidade da economia mineira. "A boa notícia é que não somos dependentes de uma única cultura, além da pecuária, a agricultura também é muito expressiva em Minas Gerais. Então, quando um setor está balançado, a gente conta com esse diferencial na economia", conclui. 

O agronegócio em Minas

Segundo dados da Faemg, 20% da população economicamente ativa em Minas é empregada no setor. No ranking nacional de produção, o Estado está em quarto lugar na avicultura e também em quarto na produção de suínos, segundo lugar na produção em rebanho bovino efetivo, com 23 milhões de cabeças de gado, e em primeiro na produção de leite. 

Já na lista de exportações de carne, Minas Gerais é o sexto Estado no ranking nacional, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), respondendo por 10% das exportações em faturamento e 9,8% das exportações em toneladas totais do país. 

Mas os dados da Seapa apontam para uma redução nos mercados que exportaram as carnes mineiras nos últimos anos. Em 2017, as carnes mineiras foram enviadas para 111 destinos, sendo os principais consumidores a China (US$ 275 milhões), Hong Kong (US$ 161 milhões) e Arábia Saudita (US$ 100 milhões). Já em 2018, foram exportadas para 106 destinos, sendo os principais, a China (US$ 407 milhões), Hong Kong (US$ 135 milhões) e Arábia Saudita (US$ 49 milhões). Este ano, de janeiro a junho, as carnes de Minas foram enviadas para 89 destinos. Os principais compradores continuam sendo a China (US$ 256 milhões), Hong Kong (US$ 49 milhões) e Arábia Saudita (US$ 22 milhões).

Em 2017, as exportações de carnes movimentaram US$ 964.949.827 no Estado, quando foram vendidas 355.299 toneladas, e em 2018, a exportação de 287.430 toneladas de carne renderam US$ 838.482.773. Nos primeiros seis meses de 2019, o volume exportado foi de 128.555 toneladas, que ajudou a movimentar US$ 433.550.000 em Minas. 

"Tiro no pé"

Enquanto empresários e entidades que analisam o mercado rechaçam a repercussão internacional das queimadas, estudiosos acreditam que a motivação por trás da situação na região amazônica - expandir o agronegócio - pode ter sido um tiro no pé. 

Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Bernardo Machado Gontijo, especialista em biogeografia, explica que as queimadas ocorrem para facilitar a abertura de áreas de pastagem. "Isso é fruto do afrouxamento das políticas de controle de desmatamento, da pressão de criadores de gado e lobby agropecuário. Isso vem ocorrendo dentro de áreas demarcadas indígenas e de florestas protegidas", explica. 

Segundo ele, a situação ambiental do país vai impactar negativamente a exportação de carnes, e o que pretendia-se, em tese, ajudar a expandir o agronegócio - a abertura de mais áreas de pastagens por meio de queimadas em áreas protegidas - vai gerar um boicote à entrada de produtos brasileiros no mercado internacional, como a Finlândia já sinalizou. 

"Acordos como o da UE e Mercosul estão vinculados a compromissos internos, como a preservação e proteção da biodiversidade brasileira. Então, afrouxar essas normas, reduzir fiscalização, desacreditar um órgão do próprio governo federal (o INPE) mostram falta de maturidade política e ignorância diplomática. O governo tem ignorado, desde o início do ano, todos os alertas de incêndio enviados pelo INPE. Nossa política internacional era respeitável no mundo inteiro e agora essa tradição está indo por água abaixo", conclui. 

O que diz o Ministério da Agricultura 

Questionado pela reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento informou que o posicionamento do órgão em relação à repercussão internacional das queimadas na Amazônia foi dado pela ministra Tereza Cristina nesta sexta-feira (23). 

Segundo ela, não há razões para eventuais barreiras ao agronegócio brasileiro em razão das queimadas. “Nós não podemos dizer que por neste momento termos um incêndio acontecendo, ou uma queimada acontecendo na Amazônia que o agronegócio brasileiro é o grande destruidor e, portanto, vamos fazer barreiras comerciais contra esse agronegócio”, disse. 

Ela também afirmou que os países precisam se informar sobre a situação antes de tomar qualquer medida. “Estamos vivendo uma seca grande que todo ano a Região Norte do país tem uma definição clara dessa estiagem, fica, às vezes, seis meses sem chuva. Este ano, está mais seco e as queimadas estão maiores. Acho que eles precisavam saber primeiro do Brasil o que está acontecendo antes de tomar qualquer tipo de medida. Quando houve incêndios em Portugal, este ano teve incêndio na Sibéria, enfim, teve incêndio no mundo todo na época seca também da Europa, e o Brasil não foi lá questionar e nem pedir para não receber nada. O que a gente precisa é baixar essa temperatura. A Amazônia é importante e o Brasil sabe disso, o Brasil cuida da Amazônia”, disse, ainda. 

A informação da pasta é que nesta sexta foi firmado um convênio com o Banco do Nordeste (BNB) para subsidiar políticas públicas e privadas de inovação voltadas para o desenvolvimento sustentável da agropecuária na Caatinga.  

Veja abaixo o pronunciamento completo da ministra:



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