Os mais de cem dias sem chuva em boa parte dos municípios de Minas Gerais afetam negativamente a economia do Estado, complicando projeções de produtores, principalmente no setor da agricultura. As produções de café, soja, milho e de frutas, bem como a pecuária de gado de leite e de corte são áreas nas quais os produtores se sentem mais receosos em médio prazo. O impacto também tem sido sentido na cadeia da mineração.

No cultivo de café, do qual Minas é responsável por cerca de 50% da produção nacional, a avaliação de especialistas é a de que a seca dos últimos anos pode derrubar em até 20% as projeções da próxima colheita – prevista em cerca de 25 milhões de sacas para o Estado. Mesmo que o volume de chuva se estabilize a partir de outubro, os danos da falta de umidade podem ser graves.

“Com menos chuva, o café desfolha e há maior proliferação de pragas e doenças. Tudo vai depender da retomada da chuva prevista para outubro, mas é pouco provável que ela seja capaz de recuperar todo o estrago que já foi feito”, aponta engenheiro agrônomo José Braz Matielo, da Fundação Procafé, que reforça que os efeitos da estiagem têm sido sentido tanto no Sul, quanto na Zona da Mata, Triângulo e Alto Paranaíba.

Soja e milho

Na cultura de grãos, muito forte nas regiões do Triângulo e Alto Paranaíba, os produtores têm adiado o plantio da soja devido à baixa umidade do solo. À mesma época do ano passado, quando a chuva havia sido mais generosa, o processo já havia se iniciado.

Agora, as projeções são a de que o plantio ocorra somente em meados de novembro. O adiamento traz consequências, já que pode reduzir a exposição da soja à melhor luminosidade e afetar o plantio do milho no início do ano que vem. “A gente sempre espera que dê certo, mas o adiamento pode atrasar a segunda safra. Até 10 de março precisamos plantar o milho, mas é preciso que a soja cumpra o ciclo”, afirma o presidente da Comissão de Grãos da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg), Rodrigo Erval.

Gado

No caso da produção de gado de corte, os impactos mais fortes têm sido sentidos no Norte de Minas, que vem acumulando perdas em mais de seis anos de seca na região. No período, a redução da área de pastagem na região chega a cerca de 70% (mais de 500 mil hectares). Já o rebanho encolheu de 3,5 milhões de cabeças para 1,4 milhão, afirma Ricardo Alta, do Sindicato Rural de Montes Claros. “Havia dois grandes frigoríficos na cidade, cada um com cerca de mil abates por dia. Hoje resta um, com 300 a 400 abates”, diz Ricardo.

Já em Jaíba, que possui o maior projeto de irrigação da América Latina, a baixa vazão do rio São Francisco fez com que a captação de água fosse suspensa das 7h das quartas-feiras às 7h de quinta, todas as semanas. “O receio do produtor é que esse racionamento aumente. Hoje, já impacta culturas como cebola, abóbora, tomate e pimentão”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Jaíba, Dalton Lode.

Plantio de grãos depende de 100 milímetros de chuva

O veredicto dos produtores e especialistas é o de que seja preciso cerca de 100 milímetros de chuva até novembro para assegurar a melhoria da situação – principalmente no caso dos plantios de grãos e do café.

Luís Ladeia, do Instituto Nacional de Meteorologia, lembra que o período que atravessamos é tradicionalmente de falta de chuvas, mas que este ano tem sido anômalo, já que mesmo nos meses de estiagem sempre houve pequenos índices de precipitação, o que não aconteceu em 2017. Ladeia é otimista e afirma que as projeções são de chuva dentro da média para o verão.

“Há mudanças na atmosfera e já temos previsão de chuvas no Triângulo, Sul de Minas e Belo Horizonte neste fim de semana, mas elas só se tornam mais frequentes na segunda semana de outubro. E os modelos ainda indicam um verão dentro da média” , afirma o meteorologista.

O economista da Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio), Guilherme Almeida, aponta que as variações climáticas que podem afetar a produção agrícola fazem com que o setor nem sempre possa ser considerado em momentos de retomada econômica. Ainda que o agronegócio tenha sido fundamental no crescimento do país no primeiro semestre.

“Colocar o peso somente no setor para retomada dos postos de trabalho é arriscado. Mas temos observado crescimento em outras áreas, neste semestre, como serviços e indústria de transformação, com a volta da confiança”, diz.

O economista descarta a possibilidade de um eventual prolongamento da seca afetar a inflação no início de 2018. “O atual patamar da inflação está muito baixo, em decorrência inclusive do preço baixo dos alimentos. Aumentos pontuais podem ser sentidos devido às questões climáticas, mas nada que gere pressão inflacionária. No passado, quando impactaram a inflação, havia outros reajustes, como energia e combustível”, diz.


Falta de água reduz em 80% produção da Kinross, em Paracatu

A atividade extrativa em Minas Gerais também sofre o impacto da escassez de chuvas. Fontes do mercado apontam que a mineradora Kinross Gold Corporation, que opera em Paracatu, na região Noroeste do Estado, teve uma redução de 80% de sua produção e metade do seu quadro de funcionários está em férias coletivas.

A companhia canadense, por meio de nota, declarou que apesar das diversas medidas adotas para otimizar o consumo de água, devido à seca constante, teve que diminuir as atividades a partir de julho e confirmou a redução da produção no terceiro trimestre deste ano em relação a um período normal. Quanto ao quadro de funcionários, a Kinross apenas informou que está trabalhando “para evitar demissões por conta dessa redução pontual da operação”.

Para o diretor de Assuntos Ambientais do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Rinaldo Mancin, o gerenciamento de recursos hídricos está entre os grandes desafios do setor para os próximos anos, já que a água é um elemento caro de ser obtido.

“Quando você tem que praticamente paralisar uma operação do tamanho da Kinross, a maior produtora de ouro no pais, é preocupante”, afirma Mancin.

Além da mineração, outras indústrias do Estado também estão tendo dificuldades devido à falta de chuvas. Assim como na região Noroeste, as empresas do Norte e Vale do Rio Doce têm enfrentado problemas de abastecimento, provocando redução de até 60% na produção.

“A indústria de alimentação tem sofrido bastante, principalmente as que usam água para higienização, como fábricas de laticínios e abatedouros”, diz o gerente de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Wagner Soares.
Algumas empresas dessas regiões estão impedidas de captar água em determinados dias da semana, enquanto as que não podem prescindir do recurso por um dia tiveram que reduzir o volume utilizado diariamente.

Soares explica que a Fiemg tem um programa para sensibilizar as fábricas para que adotem programas de contingenciamento e evitem essas situações de restrição na produção.