A Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT) assinou nessa quinta-feira (22) uma carta de intenção para transmitir o conteúdo da TV Cultura em cidades do interior de Minas. A TV Poços, de Poços de Caldas, no Sul de Minas, foi a primeira a se formalizar como afiliada da emissora paulista, enquanto outras 13 TVs educativas devem firmar contrato até o início de 2021.

A questão é que a troca do sinal da Rede Minas pelo da TV Cultura em 14 cidades mineiras poderá causar impacto nos estudos de milhares de estudantes da rede estadual de ensino que acompanham o programa “Se Liga na Educação”, um dos pilares do ensino remoto emergencial adotado pela Secretaria de Estado de Educação (SEE-MG).

O programa é exibido nas manhãs, de segunda a sexta-feira, pela Rede Minas e suas parceiras, atingindo quase 300 dos 853 municípios mineiros. Estima-se que 200 mil alunos da rede estadual moram em cidades que recebem sinal da emissora estatal mineira.

A AMIRT, que representa 26 emissoras educativas do interior, informa que, após a oficialização de contrato com a TV Cultura, cada TV terá autonomia para decidir se continuará transmitindo ou não o programa “Se Liga na Educação”. A TV Cultura esclarece, porém, que “enquanto houver ensino remoto devido à pandemia, a TV autorizará as novas emissoras afiliadas a continuar a transmissão das vídeo aulas, não prejudicando, portanto, os estudantes”.

As emissoras que já demonstraram interesse em retransmitir o sinal da TV Cultura estão em cidades de porte médio e relevância regional, como Poços de Caldas, Sete Lagoas, Divinópolis, Araxá, Patos de Minas, Passos, São Sebastião do Paraíso, Vespasiano e Unaí. Somados, esses municípios têm quase 1,5 milhão de habitantes.

A SEE-MG afirmou que o programa Se Liga na Educação é uma iniciativa pedagógica complementar que integra o Regime de Estudo não Presencial ofertado na rede pública estadual de ensino. Os alunos também podem assistir ao programa pelo Youtube,  pelo site estudeemcasa.educacao.mg.gov.br e aplicativo Conexão Escola, cuja navegação é gratuita para alunos e professores da rede pública estadual.

Os estudantes também podem assistir ao programa pela TV Assembleia, mas entre as cidades que podem ficar sem o sinal da Rede Minas, apenas Pará de Minas e Sete Lagoas possuem sinal aberto da emissora do Legislativo mineiro.

Parceria

Segundo o presidente da AMIRT, Luciano Pimenta, o contrato com a TV Cultura não prevê apenas exibição da programação da emissora paulista, mas também colaboração de conteúdo, com envio para São Paulo de reportagens feitas no interior de Minas. “É o início de uma nova visão de negócios”, diz.

Ele afirma que o acordo não prevê envio de recursos para as emissoras mineiras, mas deve haver alguma forma de apoio da TV Cultura, embora não esteja claro como será essa parceria.

Porém, Pimenta deixa claro que o fato de o governo mineiro não injetar recursos nas emissoras educativas, via inserções comerciais, pesou na decisão das fundações. “Tentamos um financiamento para digitalização pelo BDMG e não tivemos sucesso. Além disso, um convênio que tínhamos com a Cemig foi cancelado recentemente e o governo não anuncia nas TVs educativas", completa.

Por meio de nota, a TV Cultura explica também que já disponibiliza os seus canais de educação para outros estados do país, como Mato Grosso do Sul, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Paraná, Espírito Santo e Sergipe.

Rede Minas

O presidente da Rede Minas, Sérgio Rodrigo Reis, lamenta que as emissoras deixem de transmitir a programação da TV mineira sem uma conversa prévia sobre o assunto. Para ele, quem perde com essa mudança é o povo mineiro.

“A Rede Minas passou por uma seleção curatorial, exibindo o que há de melhor da produção local, da TV Cultura, da TV Brasil e o Se Liga na Educação, que foi um programa criado para atender toda a rede estadual de educação e se tornou um sucesso, passando em muitos momentos a audiência de emissoras comerciais”, afirmou Reis, acrescentando que a Rede Minas negocia com novos parceiros para ampliar seu sinal para mais cidades mineiras. 

Segundo ele, já houve casos de emissoras do interior que passaram a transmitir o sinal da TV Cultura, mas depois voltaram atrás, solicitando serem parceiras da Rede Minas novamente. “Em 15 dias, recebi quatro representantes de TV que querem assinar com a Rede Minas. Isso acontece porque não há valor agregado na exibição de uma programação de outro Estado. Nada substitui falar diretamente com seu público, com sotaque e cultura do seu Estado”.

Reis adiantou que o programa "Se Liga na Educação" foi tão bem recebido pelos estudantes da rede estadual que a Rede Minas planeja permanecer com as teleaulas mesmo após o fim da pandemia e o retorno das aulas presenciais. “Vamos manter o programa, mas com foco no reforço escolar”.

Na noite desta terça-feira (27), a Cemig afirmou que encerrou o contrato por questões técnicas de entrega de audiência das emissoras e pelo cenário de restrição financeira. O Governo do Estado afirmou que "apoia a promoção de uma programação de interesse público, com foco em conteúdo cultural e educativo. No entanto, respeita a liberdade de escolha das emissoras. Em relação à destinação de verbas aos veículos de comunicação, o Estado segue critérios técnicos".