Durante os anos 1980, o cabeleireiro Eder Cunha fez sucesso em Santos e não era por cortar cabelo. Sua habilidade era subir em uma bicicleta e deslizar por sobre os prédios da orla, com um dos pés no banco e o outro no guidão.

Há quase sete anos, a bike estava parada e Cunha seguia com o trabalho no salão. Nesta quinta-feira (3), ele estará na estreia de Um Sonho Real, no Teatro Frei Caneca. O retorno com as acrobacias veio do convite de Gustavo Lobo, fundador da Companhia Rudá. "Falei com ele e agendamos um ensaio. Quando o vi, achei que não ia dar conta." A resposta veio ao subir na bicicleta. "Eder deslizou como se fizesse aquilo todos os dias", lembra.

Partindo do resgate de memórias e habilidades, o espetáculo faz um passeio por brincadeiras típicas de criança, como amarelinha, esconde-esconde, pião e pipa. "Nós construímos um bairro no palco e, ao entardecer, as crianças brincam", explica. E, para ilustrar tantos jogos, um elenco de oito artistas executa acrobacias, números aéreos, dançam e interpretam. "É como voltar no tempo que não éramos perseguidos pelo relógio. É um grande contraste entre as gerações atuais que estão mergulhadas em jogos virtuais", explica.

O trabalho teve seus primeiros rascunhos enquanto Lobo ainda cumpria temporada em Orlando com o espetáculo La Nouba, do Cirque du Soleil e dirigido por Franco Dragone.

Sua entrada na companhia canadense se deu em 2002, em um programa de treinamento durante um ano para acrobatas. "Tive aulas de teatro, dança, música, movimento e coreografia", conta. O objetivo era fazer parte da formação geral de um novo espetáculo.

Ao fim do período, a companhia contratou imediatamente alguns artistas e Lobo não estava entre os escolhidos. A volta para o Brasil então teve um gosto meio amargo e uma espera de dez meses. "Fiquei um pouco frustrado porque achei que tinha acabado ali. Até o dia em que recebi uma ligação me convidando para a nova montagem", relembra Lobo.

Assim, em 2007, ele se preparava para estrear Corteo, em Montreal, dirigido pelo suíço Daniele Finzi Pasca. A parceria deu tão certo que em 2012, o diretor convidou-o novamente, dessa vez, para estrear Nebbia montagem de sua companhia Teatro Sunil.

De volta ao Cirque du Soleil, na montagem de Dragone Lobo, ele interpretou o Pierrot Vermelho. Para o acrobata, a vivência deu segurança para atuar. "Era a experiência que eu precisava. Minha personagem costurava todo o espetáculo."

Mais três anos em cartaz e Lobo decidiu voltar ao Brasil para criar a própria companhia. Em 2012, ele realizou duas apresentações do espetáculo, produzidas de maneira independente no Teatro Coliseu, em Santos. "Passamos o chapéu pela cidade pedindo apoio dos comerciantes, parentes e amigos", relembra. O resultado alimentou um projeto piloto, que obteve incentivo para cumprir uma temporada anual no Brasil e também no exterior. Após São Paulo, Curitiba receberá a montagem. "No ano que vem, temos planos para o Chile."