Manhuaçu, no Leste de Minas, está à beira de um colapso hídrico. A redução do volume de água captada para tratamento é superior a quatro milhões de litros por dia, que daria para abastecer uma cidade de 30 mil habitantes. Para o diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), José de Aguiar, as medidas paliativas surtirão efeito por no máximo 15 dias, caso não chova. O racionamento foi iniciado na cidade, que tem 86 mil moradores.

“É uma situação atípica, nova. Não sabemos exatamente quanto tempo temos antes de um colapso total”, lamenta Aguiar. Vários bairros estão sendo abastecidos com caminhões-pipa, mas a água não é suficiente.

Distritos de Manhuaçu também estão sendo afetados. São pelo menos 12 localidades sem ou com pouca água tratada nas torneiras. Entre eles estão Vilanova, Santo Amaro de Minas, São Sebastião do Sacramento, Realeza e Vila Boa Esperança.

Necessidade

Em Vilanova, a captação caiu nessa terça (20) de oito para dois litros por segundo. O distrito tem sete mil moradores. “Pior situação é a do rio São Luiz”, afirma o prefeito Nailton Heringer.

Para driblar a crise hídrica, há 15 dias a prefeitura iniciou o “racionamento pontual”. Pela manhã, lança água para a área central da cidade, e à noite para os bairros. “A partir de hoje (nessa terça), vamos mandar água de acordo com a necessidade do bairro”, avisa o prefeito.

Ele tenta todas as alternativas antes de decretar calamidade pública. Entre elas, a construção de poços artesianos e a conscientização da população. Uma lei municipal prevê multa de R$ 172 a R$ 2,7 mil para quem desperdiça água.

“Fizemos alertas para o risco de desabastecimento total e acredito que as medidas que tomamos vão surtir efeito, principalmente se a população nos ajudar”.

Negativos

O município é abastecido pelos rios Manhuaçu e Manhuaçuzinho, que nessa terça (20) apresentavam a régua de medição negativa em 70 centímetros. No primeiro, a captação caiu de 113 para 57 litros por segundo, e no outro, de 132 para 42.

Nos distritos de Ponte do Silva, São Sebastião do Sacramento e Vilanova, que somam cerca de 15 mil moradores, a quantidade de água captada é 30% inferior à necessidade. Na noite de 12 de outubro, a captação em Vilanova foi de 0,4 litro por segundo. O normal nesta época do ano seria de 8,0 litro por segundo.

Em busca de uma solução, o Saae assinou convênio para antecipar a entrega de um poço artesiano neste distrito. A perfuração e reativação de outros poços na localidade fazem parte das medidas adotadas de forma emergencial e paliativa, que incluem o abastecimento de bairros com o uso de dois caminhões-pipa.

Outro projeto, para efeito a longo prazo, é captar água em um afluente do rio Manhuaçu. Estudos apontam a necessidade de três mil metros de tubos para ligar o local da captação à base de tratamento.

Produção de café afetada, e calamidade ameaça Peçanha

Algumas regiões só são abastecidas por caminhões-pipa a cada três dias. A prioridade são as escolas e unidades de saúde.

Manhuaçu tem a segunda maior produção cafeeira do Estado e sofre os impactos da seca. “O final de outubro é período da segunda florada, mas com a falta de chuva e a baixa umidade do solo, dificilmente ela vai acontecer”, lamenta o secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente, Sandro Tavares.

A Defesa Civil do município também está se mobilizando para evitar qualquer tipo de desperdício. “Fazemos parte do Comitê de Bacias Hidrográficas e há um alerta para todo país, não só para Manhuaçu. Esperamos que cada um faça a sua parte”, afirma a coordenadora do órgão, Maria Tereza Nacif.

Nascentes

No Parque Municipal Natural Mãe D’água, em Peçanha, no Vale do Rio Doce, nascentes são usadas para o abastecimento de moradias onde a água canalizada não chega ou os caminhões-pipa contratados pela prefeitura não têm acesso. A prefeitura está prestes a transformar o decreto de emergência em calamidade pública.

Segundo o secretário de Administração, Willian Vinícius Braga, a água que abastecia a cidade de 17 mil habitantes era captada em uma lagoa, que secou. Foi criada uma barragem no rio Suaçuí Pequeno, que não surtiu efeito.

Sistema de saneamento de Divinópolis será gerido por meio de parceria público-privada

A gestão integral do sistema de saneamento de Divinópolis, na região Centro-Oeste de Minas Gerais, será feita a partir de agora por meio de Parceria Público-Privada (PPP). O serviço será prestado pela empresa espanhola Acciona, que ganhou a licitação, em parceria com a Copasa. O projeto prevê um investimento de cerca de R$ 420 milhões, custeados em partes iguais pelas empresas.

Estão previstas a construção e a implantação de duas estações de tratamento de águas residuais, 16 estações de bombeamento do sistema e a construção das redes de coletores de águas residuais da cidade. A Acciona ainda vai se encarregar da operação e manutenção do sistema nos próximos 26 anos.

A maior planta programada, com capacidade inicial de 400 litros por segundo e previsão de ampliação ao longo do período da concessão até alcançar 600 litros por segundo, prestará serviços a uma população de quase 230 mil habitantes. Além disso, as instalações terão 67,8 km de rede de esgotos e 6,1 km de coletores.

No Rio de Janeiro

Em julho do ano passado, a Secretaria do Estado do Meio Ambiente do Rio de Janeiro concedeu à Acciona, em parceria com as empresas brasileiras Serveng e Gel, o contrato para realizar as obras do sistema de saneamento de São Gonçalo, a segunda maior cidade do Estado, atrás apenas da capital, num valor global de 117 milhões de euros. O projeto, com um prazo de execução de 36 meses, inclui a recuperação ambiental das bacias hidrográficas dos rios Alcântara (que dá nome ao projeto) e Mutondo, e atenderá a uma população estimada de 250 mil habitantes.

Anteriormente, a Acciona, presente em mais de 30 países, já tinha realizado obras de remodelação e melhorias da planta de tratamento de águas dos ribeirão Arrudas, em Belo Horizonte. Atualmente, a empresa ainda opera as instalações na capital mineira.