O faturamento da indústria extrativa mineral despencou 64% em fevereiro, mês seguinte ao rompimento da barragem da mina do Feijão, em Brumadinho, conforme a pesquisa Indicadores Econômicos (Index) da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Com grande parte da produção da Vale paralisada, reflexo da tragédia, sindicatos temem demissões em massa e denunciam cortes “a conta gotas”.

O desmoronamento da barragem, em 25 janeiro, deixou 217 mortos até agora e 79 desaparecidos. O cenário nebuloso impactou diretamente o faturamento geral da indústria, que fechou em queda de 0,3% contra fevereiro passado. 

Conforme a mesma pesquisa, as horas trabalhadas no setor extrativo mineral caíram 33,4% quando comparadas com fevereiro passado. A quantidade de pessoas empregadas, no entanto, subiu 1,9%.

O ambiente negativo preocupa o presidente do sindicato Metabase Inconfidentes, Rafael Ávila. Em março, conforme o representante da entidade, a Vale dispensou cerca de 15 pessoas nas minas de Fábrica, cujas operações estão suspensas para descomissionamento desde janeiro, e Timbopeba, interditada pela Justiça em março. “Esse número é o que ficamos sabendo. Porém, como o sindicato não tem que homologar as demissões, a quantidade de demitidos é maior”, critica. 

Poucos dias após o colapso da barragem de Brumadinho, o então presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, anunciou a interrupção das operações de dez minas a montante. Na época, o executivo disse que não iria demitir empregados em função das paralisações. Segundo ele, os funcionários seriam reaproveitados em outras áreas. 

O problema, conforme o presidente do sindicato, é que a medida não foi colocada no papel. Além disso, outras minas tiveram as operações suspensas pela Justiça. “Estamos tentando mediações com a Vale no Ministério Público do Trabalho (MPT), mas a empresa não comparece para nos dar uma satisfação. Vamos nos unir a outros sindicatos para cobrá-la”, adianta Ávila. Cerca de 1,5 mil pessoas atuam em Fábrica e Timbopeba. Há, ainda, os trabalhadores indiretos.

A gerente de Economia da Fiemg, Daniela Britto, lembra que 25% da produção industrial mineira é extrativa mineral. [/TEXTO]Além disso, grande parte da economia do Estado está atrelada à mineração. 

“Haverá um impacto na economia em geral. A indústria de Minas já vinha apresentando dificuldade de recuperação, tanto que no fechamento de 2018 todos os indicadores do Índex foram negativos, exceto o faturamento. Agora, até o faturamento está caindo. Tudo isso, puxado pela indústria extrativa mineral”, lamenta. 

Levantamento da Fiemg divulgado no mês passado apontou que a paralisação de algumas minas no Estado culminaria em retração de 4% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, ante estimativa de alta de 3,3%. Pelo menos 851 mil postos de trabalho dos mais diversos segmentos seriam fechados, alerta o estudo. A Vale não se posicionou. 

Protocolos garantem repasses ao Estado e a cidades impactadas

 governo de Minas, a Vale e a Associação de Municípios Mineradores (Amig) assinaram ontem protocolo de intenções para que a empresa reembolse as forças de segurança do Estado e os municípios que estão sendo impactados pela suspensão da atividade minerária. 

De acordo com o documento, a companhia se comprometeu a doar R$ 5 milhões à Defesa Civil, órgão que coordena os trabalhos nas áreas atingidas pelo rompimento da barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho, em 25 de janeiro. 

O recurso será usado para a compra de equipamentos. Os valores disponibilizados independem de bloqueios de recursos da empresa, determinados pela Justiça, e das indenizações às famílias que ainda serão apuradas.

Pelo documento assinado ontem, a Vale se comprometeu também a doar à Polícia Militar 38 viaturas e dez caminhonetes com rádios comunicadores. Já para os municípios, a mineradora vai prestar auxílio financeiro emergencial e pontual, em valores a serem definidos após acertos com os gestores municipais.

No protocolo assinado pela Amig, serão beneficiados Barão de Cocais, Belo Vale, Congonhas, Itabirito, Mariana, Nova Lima, Ouro Preto, Rio Acima, São Gonçalo do Rio Abaixo e Sarzedo. Os recursos buscam reduzir os impactos sociais e econômicos com a paralisação temporária das atividades minerárias nessas regiões.

Segundo informações do governo de Minas, em 31 de janeiro a Vale já havia anunciado o repasse de R$ 80 milhões a Brumadinho, verba que será liberada ao longo de dois anos.

“Tragicamente, estamos lidando com a perda de mais de duas centenas de vidas. Nossa prioridade máxima é assegurar que as famílias afetadas sejam amparadas e que os custos do governo estadual e os prejuízos financeiros dos municípios atingidos sejam ressarcidos”, disse o governador Romeu Zema (Novo).

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