Aos poucos a Ferrari vai se entregando à eletrificação. Depois do módulo KERS da LaFerrari e da híbrida SF90 Stradale, com três motores elétricos combinados com um V8, agora ela apresenta o 296 GTB. Supercarro híbrido que remete a um dos momentos mais importantes e contraditórios da Ferrari. Siga o raciocínio:

Em 1957, Enzo Ferrari criou uma segunda marca, que batizou de Dino. O nome foi dado em homenagem a Alfredo “Dino”, primogênito do Comendador, que morreu em 1956.

A Dino foi uma divisão com motores V6, que primeiramente foi empregado no automobilismo, mas que na década de 1960 passou a produzir carros esportivos. Ela teve como modelo de estreia a controversa Dino 206 GT em 1967, que evoluiu para 246 GT e GTS a partir de 1969, devido ao motor maior. 

Apesar de rejeitada pelos puristas da marca, pelo fato de ser o primeiro carro de Maranello com motor V6, e não um V12, a 206 foi divisora de barreiras para a Ferrari.

O carro foi o primeiro com motor posterior para uso em estrada. Até então apenas monopostos e protótipos tinham motores traseiros. E esse conceito se mostrou um dos mais eficientes do segmento de alto desempenho e é adotado até hoje. Na época, as más línguas diziam que Enzo tinha medo de vincular seu V6 ao emblema do Cavallino Rampante. 

Daí, se o carro não caísse no gosto dos consumidores, não macularia o lastro de sua escuderia. No entanto, o V6 foi fundamental para o desenvolvimento da família de motores V8 literalmente fazem a Ferrari andar até hoje. 

296 GTB

Agora, sem medo de “queimar o filme”, a marca volta a utilizar um V6, o primeiro desde 1974. E, detalhe: um V6 híbrido. A unidade é combinada com um módulo elétrico e equipa a novíssima 296 GTB. O nome o carro se traduz pelo volume do motor: 2.9 litros, o número de cilindros (seis) e a sigla Gran Turismo Berlinetta. 

A grande novidade é que o carro passa a adotar um motor elétrico MGU-K, que faz com que o V6 biturbo, com bancadas a 120º, que entrega 663 cv eleve sua potência para 830 cv e torque de 74 kgfm. 

O ângulo mais aberto das bancadas de cilindros se dá pelo novo conceito de posicionar os turbocompressores entre linhas de pistões. Esse tipo de montagem faz com que o acionamento das turbinas seja mais rápido e eficiente de quanto elas eram montadas nas laterais do bloco. A Audi usa esse conceito há bastante tempo e o restante da indústria tem seguido o mesmo caminho desde que a sobrealimentação se tornou uma solução para reduzir o tamanho dos blocos e também de emissões.

Os motores são conectados a uma transmissão de dupla embreagem e oito marchas F1 DCT e tração traseira. O conjunto permite à 296 GTB acelerar de 0 a 100 km/h em 2,9 segundos e máxima de 330 km/h.

Visual 

O visual da 296 GTB é moderno e segue a evolução de estilo de Maranello, com elementos vistos em modelos como Roma e a própria SF90 Stradale. No entanto, é nítida a inspiração e reverência à Dino. As linhas laterais onduladas, assim como a traseira levemente arrebitada e os coletores de ar sobre o paralamas traseiros são uma evolução da 246 GTB. 

Outro elemento retirado do carro dos anos 1960 é o formato do capô e para-brisas traseiro. A tampa do V6 é plana, com um estreita janelinha atrás do banco. Esse tipo de desenho foi usado até 1999, na F355. 

Isso porque sua sucessora, a 360 Modena, passou a usar para-brisas traseiro que acompanhava a cadência das colunas. Estilo que é utilizado até hoje na F8 Tributo.

Por dentro, a 296 GTB conta com acabamento sofisticado e um imenso quadro de instrumentos digital que aposenta de vez o conta-giros analógico, que é um item imaculado em todo supercarro. Será que os puristas vão torcer o nariz, outra vez?

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