Se vender automóvel, novo ou usado, se tornou tarefa árdua em dias de pandemia, o setor de carros de luxo não têm do que reclamar. Enquanto o mercado geral amarga quedas de quase 50% em 2020, marcas como Audi, Porsche e até mesmo a Ferrari estão com suas atividades aquecidas. Para se ter uma ideia, a fabricante das quatro argolas anunciou a linha 2021 do supercarro R8 V10, por R$ 1,2 milhão, há poucas semanas. Dias depois comunicou que todo o lote do supercarro tinha sido vendido. 

Agora a representante oficial da Ferrari acaba de trazer para o Brasil a F8 Tributo, modelo lançado no ano passado e que substitui a 488 GTB, por nada menos de R$ 3,5 milhões. E já teve quatro unidades vendidas. A Porsche também não tem do que reclamar. A marca entregou 62 unidades do 911, em maio. Vale lembrar que o lendário esportivo é vendido por aqui a preços que variam de R$ 520 mil a R$ 1,4 milhão. 

Desde janeiro foram 374 unidades do esportivo, que correspondem a mais de um terço das vendas da marca, este ano, que acumula 976 unidades, numa gama que ainda conta com modelos mais “acessíveis” como o SUV Macan, assim como 718 Boxster, 718 Cayman, Panamera e Cayenne. Para se ter uma ideia, em 2019 foram vendidas 259 unidades do clássico alemão, que correspondeu a cerca de um sexto do volume total, que foi 1,8 mil carros. 

Gargalo

Um fator para a alta do 911 está no tempo de entrega. Isso porque, ao contrário de um automóvel convencional, que tem unidades disponíveis para pronta-entrega, um Porsche pode levar meses para parar nas mãos do dono. Afinal, trata-se de um carro que é feito em uma única fábrica, com volume de produção bem menor que de um popular, além de oferecer uma série de personalizações. Ou seja, muitos desses carros foram comprados ainda em 2019 e só agora chegaram ao país e foram licenciados.

É o mesmo caso do R8 e também da F8. Grande parte das unidades destinadas para o mercado brasileiro ainda serão fabricadas, assim como o esportivo italiano. Dos quatro carros vendidos, apenas um foi entregue. 

Puro-sangue

Voltando a F8, o modelo faz parte da linhagem de berlinetas equipadas com motores V8 centrais, que teve início nos anos 1970 com a 308 GTB. Os R$ 3,5 milhões é um valor que assusta até mesmo quem é milionário. Na Europa, ela é vendida por 232 mil euros, que corresponde a R$ 1,3 milhão, na cotação atual. No entanto, para chegar aqui são acrescidos impostos de importação, além de outros tributos e também a margem do importador. 

Mas fato é que a F8 é um carro superlativo não apenas na etiqueta: seu desenho é uma evolução que vem desde a 458 Italia, com bicho bem afilado, faróis longitudinais, janelas laterais em forma de gota, muitos vincos e generosas tomadas de ar nos para-lamas traseiros. 

Abaixo do capô o destaque fica por conta com V8 biturbo 3.9 que entrega 720 cv e 78 mkgf de torque. A Ferrari voltou a utilizar o turbocompressor no bloco oito cilindros em 2015, na California T, como uma solução para reduzir emissões, já que se conseguia muito torque sem precisar elevar a rotação às alturas.

Além de ser o V8 mais potente de sua história, esse motor, combinado com uma transmissão automática de sete marchas, permite que o bólido acelere de 0 a 100 km/h em 2,8 segundos. A máxima é de 340 km/h.

Seminovo

Se comprar um Porsche, Ferrari ou Audi pode significar meses de espera, devido ao processo fabril desses automóveis, uma solução para os mais afoitos é o setor de seminovos. Quem explica é o sócio-diretor da Wish Motors, Pietro Consolini. Segundo o empresário que tem loja em São Paulo, a espera por um modelo de luxo pode levar quase um ano. 

“O Porsche é um caso atípico do mercado de seminovos. Com fila de espera de até oito meses nas concessionárias, como para o modelo Boxster zero km. O seminovo tem demanda grande e alguns chegam a ser mais caros do que os novos”, explica Consolini.

O empresário acredita que apesar dos efeitos da pandemia, o setor de seminovos de luxo manterá a curva ascendente, como em 2019. E a razão está justamente na impaciência dos clientes. “São consumidores que buscam pronta-entrega e veículos com baixíssima, ou nenhuma, desvalorização. Alguns seminovos chegam a custar até mais do que o veículo novo, como os modelos 911 da década de 1990. São muito exclusivos no Brasil, pois não existem muitas unidades disponíveis”, afirma o empresário, que compara que uma unidade da geração 993, produzida entre 1993 e 1997, custa em média R$ 600 mil, enquanto um 911 Carrera novo parte dos R$ 520 mil.

Nos classificados é possível confirmar observações de Consolini. Para se ter uma ideia, uma Ferrari 488 Pista (versão ainda mais nervosa da 488, antecessora da F8 Tributo) seminova está avaliada em R$ 4,1 milhões. Já a conversível 488 Spider varia entre R$ 2,5 milhões e R$ 3,5 milhões, com dois anos de uso. Ou seja, quando não há valorização a depreciação é baixa.

No caso dos Porsches, em que empresário é especialista, uma versão de alto desempenho usada, como a rara GT2 RS, pode beirar os R$ 2,5 milhões. Ainda nos classificados foi possível encontrar um 911, ano 1973, em torno de R$ 500 mil. Valor que aproxima a versão “básica” da atual geração. 

Por outro lado, há modelos Ferrari e Porsche, com preços mais acessíveis. Um 911 Targa da geração (996), ano 2002, pode ser encontrado abaixo dos R$ 250 mil, assim como uma Ferrari 308 GT4, ano 1982, ofertada por R$ 315 mil. Mais baratos que um Ford Mustang ou Chevrolet Camaro novos, que ultrapassam a casa dos R$ 350 mil. Nenhum dos casos se aplica à minha realidade, mas quem sabe um deles cabe no seu bolso.