Quem nasceu no milênio passado certamente viveu alguma aventura a bordo de um Fiat 147. O carrinho italiano se tornou um ícone da indústria automotiva brasileira por ser o primeiro automóvel da marca por aqui e também o primeiro automóvel de série, no mundo, a receber motorização a álcool.

E para marcar os 40 anos do lançamento da unidade movida a combustível verde, a Fiat resolveu fazer uma graça e levar para sua pista de testes, na fábrica de Betim, uma unidade totalmente restaurada do 147 L.

Em estado de novo, o carrinho parecia ter saído da linha montagem. O único elemento que pertencia à década de 1970 era a câmera presa ao para-brisas. Visto de fora, o 147 é um carrinho diminuto que faz seu tataraneto Argo parecer um paquiderme.

 E se por fora ele é minúsculo, por dentro o espaço impressiona. Depois de quase 20 anos sem me acomodar ao volante de um 147, é impressionante como ele veste bem, mesmo eu com 40 quilos a mais. Uma das razões é que o espaço interno é limpo, sem consoles, revestimentos e estofamento gorduchos. 

As maçanetas das portas e do rebatimento dos bancos, as manivelas das janelas e aquele painel miúdo ativaram inúmeros flashbacks daqueles dias em que chupar Bala Soft era um grande barato (ou risco).

Percepções

Os bancos baixos não contam com encostos de cabeça e os cintos dianteiros, apesar de ter fixação na coluna central, têm apenas dois pontos. Ou seja, num crash test ele não passaria nem na porta. Mas juro que isso nem passou pela minha cabeça. Na verdade, era até uma sensação estranha afivelar o cinto no 147. Afinal de contas, nos 1970 o cinto poderia servir para tudo, menos para prender algum ocupante ao banco.

Ao dar a partida, o cheiro de combustível exalando do carburador também ativava pontos adormecidos do cérebro. O ruído do motor e a reverberação do escapamento, típicos dos compactos de Betim também levavam às percepções.

Na pista

Para engatar uma marcha num carro projetado há quase 50 anos é preciso alguns macetes. Debrear e passear pela segunda e terceira marchas suavizam a entrada da primeira. Há uma explicação técnica para isso. Um alívio para as engrenagens da transmissão. 

Como se tratava de um carro restaurado, a caixa estava bem justinha. Bem diferente dos 147 que conheci no passado. Pé direito no acelerador e o pé esquerdo soltando a embreagem de forma carinhosa e o “fitinho” iniciou sua performance. 

A pista da Fiat em Betim não é nenhum autódromo. Composta por “laços” com curvas de inclinações elevadas, mas que sobravam para o carrinho. Primeira, segunda, terceira, quarta e... cadê a quinta? Vício da atualidade, como se nunca tivesse tido um 

Fusca antes. 

Firme, como era de se esperar de um carro que passou por processo de rejuvenescimento, o 147 encarou as curvas angulosas com desenvoltura. Sua suspensão independente à frente, e atrás, mostravam que o carro estava bem cuidado. 

Com os vidros abertos e a rotação elevada, conferida de ouvido, dava a sensação de que o italiano estava voando baixo. Mas ao espiar o velocímetro, o relógio marcava 90 km/h. Forçá-lo acima disso seria uma maldade, uma covardia com seu motor 1050 de 55 cv e 7,8 mkgf de torque.

Saindo do 147 bateu aquela vontade de garimpar um “fitinho”. Mas encontrar um carrinho desses e bem conservado, é um missão árdua, pois quem tem não quer vender.