Às vésperas das eleições, que acontecem neste domingo para a escolha de prefeitos e vereadores em todo o país, cresce a disseminação de fake news ou notícias falsas divulgadas como verdadeiras. Nesta sexta-feira (13), por exemplo, circulou, em grupos de Whatsapp, a informação de que a candidatura de Bruno Engler (PRTB) à PBH teria sido indeferida em razão de problemas legais envolvendo o posto de vice na chapa. E que quem votasse no número dele teria a escolha anulada.

“Com mais votos nulos, as chances de vitória de Alexandre Kalil no primeiro turno aumentam. Se você não quer Kalil, vote 23”, diz a mensagem, referindo-se ao número de João Vitor Xavier (Cidadania), segundo colocado conforme os últimos levantamentos eleitorais, mas,em alguns deles, em empate técnico com adversários como Aurea Carolina (Psol) e o próprio Bruno Engler. 

Engler reagiu, à tarde, por meio de um vídeo, no qual assegurou que a candidatura havia sido deferida e criticou duramente o adversário, sem mencionar o nome, por supostamente promover uma “onda de desinformação”, que seria fruto de desespero por temer não ir ao 2º turno, às vésperas da votação. O candidato do PRTB também insinuou que o oponente teria comprado diversos partidos para tentar vencer a eleição. "Ele está morrendo de medo do nosso crescimento (nas pesquisas)", afirmou.

Procurado, Xavier disse, por meio da assessoria da  campanha, que a acusação "beira o absurdo". "Não acredito que alguém pode levar isso a sério. Estou focado em minha campanha. Tenho trabalhado muito e com respeito a todos", afirmou. "Durante essa corrida eleitoral, sofremos dezenas de fake news e nunca acusei ninguém. Apresentei denúncias sobre isso aos órgãos competentes e aguardo apuração. Nas últimas semanas sofremos muitos ataques da militância do próprio Bruno, mas nunca fiz qualquer acusação. Não me envolvo nesse tipo de situação", completou.

Pesquisa do TSE

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitor deve estar muito atento para não ‘embarcar’ nesses conteúdos e se atrapalhar na escolha dos candidatos que possam representá-lo neste pleito. Dados de pesquisa inédita do TSE divulgados em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que a frequência de mensagens sobre desconfiança no sistema eleitoral foi exponencialmente superior em 2018, mas neste ano desponta como o segundo ano com mais conteúdos.

Intitulado “Desinformação On-line e Eleições no Brasil”, o levantamento abordou a circulação de conteúdos que incitam a crença na existência de fraudes nas urnas e de manipulação eleitoral no Brasil distribuídos no Facebook e no YouTube, entre os anos de 2014 e 2020. O volume de publicações que confronta o sistema eleitoral saltou em 2018, no contexto da corrida presidencial, mas manteve essa tendência de alta agora, nas eleições municipais.

Esses dois anos somados (2018-2020) representam metade dos posts no Facebook (48,2%) e no YouTube (45,35%). Do mesmo modo, juntos, somam 50.931 postagens com links, o que representa praticamente metade (49,1%) do total de 103.542 publicações analisadas ao longo desses sete anos do levantamento.

Posts e URLs sobre a suposta existência de urnas e de manipulação eleitoral no Brasil ganharam corpo no Facebook e no YouTube. A circulação dessas publicações mantiveram ritmo crescente entre eleições (2015,2017 e 2019, em anos de eleições gerais (2014 e 2018) e em anos de eleições municipais (2016 a 2020).

Em sete anos, foram identificadas 337.204 publicações que colocavam sob suspeita a lisura das eleições no Brasil. A maior parte, 335.169, foi localizada no Facebook e soma 16.107.846 interações. O restante corresponde a 2.035 postos no YouTube com 23.807.390 visualizações. 

Com o resultado, o TSE quer fortalecer o programa de enfrentamento à desinformação com mais dados para toda a sociedade construir ações de maneira mais transparente e ágil.

Indícios de fake

Segundo o professor de Direito Eleitoral, Raphael Maia, essa enxurrada de fakes tende a criminalizar a política, com o objetivo de eleger pessoas que se dizem fora da política. “Acho fundamental, sempre quanto surgir alguma ‘notícia’ que seja alarmante, que convoque as pessoas a compartilhar, que as pessoas verifiquem, pois é indício de fake, que busquem órgãos oficiais, como o TSE ou o TRE para conferir as informações”, recomenda.

Segundo o especialista, normalmente as fakes começam sempre com texto com bastante alarde, como atenção ou fique ligado, e termina pedindo para que as pessoas compartilhem com o maior número de pessoas possível, indicativo natural de que é algo que não é verdadeiro. “Os sentimentos das fakes tendem a levar o ódio e o medo. Normalmente, vai despertar a ira das pessoas e o medo de que algo vai ser ruim. Trabalha com a emoção das pessoas”, alerta.