O governo Bashar al-Assad está decidido a "libertar todo território sírio", apesar do risco de "agressão ocidental", garantiu o ministro sírio das Relações Exteriores, Walid Muallem, nesta quinta-feira (30), no momento em que uma ofensiva militar de Damasco contra a província de Idlib parece iminente.

Trata-se do último reduto dos rebeldes.

Há dias, o governo Assad reúne reforços nos limites dessa região no noroeste da Síria, na fronteira com a Turquia, antes de uma ofensiva que pode ser a última batalha de envergadura na guerra que assola a Síria desde 2011 e que já deixou mais de 350.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados.

"Que tenha uma agressão tripartite, ou não, isso não influenciará nossa determinação de libertar todo território sírio", declarou o ministro Muallem, em entrevista coletiva em Moscou, por ocasião de conversas com seu colega russo, Serguei Lavrov.

Essa declaração foi dada após advertência feita, na semana passada, por Estados Unidos, França e Reino Unido ao presidente Assad. 

Esses três países disseram que não vão deixar impune qualquer uso de armas químicas por parte do governo em sua eventual ofensiva para retomar Idlib.

Cerca de 60% dessa última região síria está em poder do Hayat Tahrir al-Cham (HTS, formado por membros do ex-braço da rede Al-Qaeda) e conta com vários grupos rebeldes.

Recentemente, o HTS rejeitou a possibilidade de uma dissolução, de acordo com declarações divulgadas por sua agência de propaganda, a Ibaa, mas deixou a porta aberta para uma solução negociada.

"Tentamos por todos os meios encontrar uma solução no norte da Síria liberado que proteja os habitantes de uma eventual ofensiva do regime criminoso e de seus aliados", afirmou o grupo extremista.

Embora a Turquia dê um apoio direto a vários grupos rebeldes nos territórios do norte sírio, sua influência nos extremistas do HTS é limitada. O destino de Idlib, controlada pelos extremistas do HTS, preocupa Ancara, que tenta evitar uma ofensiva do regime.

"As negociações entre Turquia e HTS continuam", destacou o diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, acrescentando que o lançamento da operação militar depende, portanto, "do fracasso, ou do êxito, das conversas com o HTS".

Já a Rússia, que apoia Assad militarmente desde 2015, reivindica uma dissolução do HTS.

"É a condição posta por Moscou para evitar uma grande ofensiva" em Idlib, explicou Abdel Rahman.

Liquidar este abscesso

Uma ofensiva do governo nessa região parece iminente, mas também depende da concordância de Moscou e Ancara.

Na quarta-feira (29), Lavrov disse esperar que os países ocidentais não forneçam obstáculos à operação antiterrorista em Idlib.

"Ainda resta a tarefa de liquidar os focos restantes do terrorismo, antes de tudo, na zona de desescalada de Idlib", insistiu Lavrov nesta quinta-feira (30).

O ministro russo considerou "inaceitável que os terroristas que estão entrincheirados lá (...) tentem usar essa zona para seus ataques contra o Exército sírio e mesmo para suas tentativas de atacar com drones a base militar russa de Hmeimim".

Lavrov advertiu contra uma "nova provocação" com armas químicas, a qual estaria em preparação, segundo Moscou, e teria como objetivo "complicar a operação antiterrorista em Idlib".

"Advertimos nossos parceiros ocidentais de maneira clara e dura para não brincarem com fogo", frisou Lavrov.

"É preciso dissociar a chamada oposição moderada dos terroristas e, ao mesmo tempo, preparar a operação contra eles, minimizando os riscos para a população civil", disse Lavrov.

"Em qualquer caso, é necessário liquidar este abscesso", frisou.

Segundo a imprensa russa, nos últimos dias, Moscou reforçou sua presença militar no país e dispõe de seu maior contingente naval frente à Síria desde o início do conflito.

Também na quarta-feira (29), o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, alertou sobre "os riscos crescentes de uma catástrofe humanitária, no caso de uma operação militar em larga escala na província de Idlib".

Hoje, o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, disse estar "disposto a me envolver, pessoal e fisicamente [...], para garantir um corredor humanitário [...] para permitir que a população civil seja evacuada para uma zona mais segura".

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