Defendida por empresários, governo federal e até alguns prefeitos e governadores, a tese de que a retomada das atividades econômicas em meio à pandemia da Covid-19 evitaria prejuízos maiores ao país ganhou, esta semana, um contraponto de peso. Elaborado por dez pesquisadores do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), estudo intitulado “Cenários de isolamento social da COVID19 e impactos econômicos em Minas Gerais” aponta que o efeito de tal medida seria justamente o oposto.

“Analisamos questões epidemiológicas, como número de doentes, de afastamentos do trabalho e de mortes, e cruzamos com um conjunto de dados econômicos do Estado”, afirma o professor Edson Domingues, líder da pesquisa. “A conclusão foi de que a manutenção do cenário de ‘distanciamento estendido’, como é o caso de BH e outras cidades, implicaria em uma queda de 1% no PIB de Minas. Já sem distanciamento, teríamos -4%. Ou seja, quatro vezes mais”, completou.

Traduzindo em cifras, a pesquisa, que não levou em conta medidas mitigadoras já adotadas pelo poder público, como o “coronavoucher”, indica que, com o isolamento social mais amplo, o tombo no PIB mineiro seria de R$ 19 bilhões deste ano até março de 2023. Já no cenário “sem distanciamento”, o prejuízo, no mesmo período, saltaria para R$ 69 bilhões.

Metodologia
De acordo com Domingues, a metodologia do estudo levou em conta indicadores de produção, faturamento, emprego, investimentos e contribuição para o PIB de setores como agropecuária, indústria, segmentos de alimentos e bebidas, comércio e serviços. 
Com base em modelos matemáticos de progressão da doença no Estado, aliados a informações demográficas e estatísticas utilizadas pela própria UFMG em estudos sobre a Covid-19, foi possível dimensionar os impactos econômicos que o novo coronavírus causaria em três possíveis cenários: distanciamento estendido, parcial e inexistente.

“Tudo isso nos mostrou que quanto mais pessoas ficarem doentes, pior será para a economia. A crise não é motivada pelo isolamento, ela é motivada pela pandemia e, dentro das circunstâncias, o isolamento é a melhor forma de reduzir os seus efeitos”, assinala Domingues. 
“A economia pode ser ajustada futuramente, com políticas públicas e ações para retomada de investimentos, emprego e renda, quando a doença passar”, acrescenta o professor.

Ele lembrou que são cada vez mais comuns, no mundo, exemplos de lugares que flexibilizaram restrições ou reabriram suas economias, durante o combate à Covid-19, e que registraram tanto mortes quanto perdas econômicas semelhantes ou até maiores que a de vizinhos que agiram ao contrário.

Presidente volta a apelar a governadores pela flexibilização

Contrariando a pesquisa do Cedeplar/UFMG, o presidente Jair Bolsonaro voltou ontem, após reunião virtual com grandes empresários do país, a apelar a governadores para que revejam o distanciamento social em seus estados.

“O cenário é preocupante. Uma economia devastada afetará diretamente na saúde. Se verdadeiramente prezamos pela vida e bem-estar, devemos evitar um desastre ainda maior que o vírus. Saúde e comida na mesa andam juntos!”, escreveu Bolsonaro em seu perfil no Twitter. 
Pouco antes, em entrevista, ele já havia ressaltado a necessidade de que se preserve a saúde das pessoas, mas acrescentou que “o preço lá na frente vai ser de centenas de mais vidas que vão perder (sic) por causa dessas medidas absurdas de fechar tudo”. 

Indústria

Também ontem, dados divulgados pelo IBGE e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostraram impactos severos da pandemia no setor industrial. Segundo o IBGE, em março, o recuo na produção nacional foi de 9,1% em relação ao mês anterior. 
Foi a primeira vez em oito anos em que houve queda em todos os 15 locais pesquisados. Minas teve a menor perda (-1,2%) e o Ceará, a maior (-21,8%).

Já a CNI apontou que sete a cada dez indústrias teve queda de faturamento durante a atual crise. “Já imaginávamos que o setor industrial sofreria bastante, pois já estava debilitado e iniciando sua recuperação, quando fomos pegos de surpresa por essa crise”, comentou o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.