Uma das figuras mais pitorescas do setor automotivo se chama Romano Artioli. O empresário italiano teve grande influência na indústria italiana, foi revendedor Ferrari. Apesar de ter falido e dado calote no governo, a Bugatti só existe hoje por causa dele e do insano EB110. Quem olha para os caríssimos Veyron e Chiron, com motores gigantescos de 16 cilindros, talvez não saiba que toda excentricidade atual da marca se deve ao EB110.

Em meados dos anos 1980, Artioli adquiriu os direitos da Bugatti e transferiu a produção para a Campogalliano, nos arredores de Modena. Com a experiência de quem fez dinheiro vendendo Ferrari, o empresário queria construir um supercarro para marcar os 110 anos de nascimento de Ettore Bugatti, morto em 1949, causando o fim da empresa. 

Quatro designers elaboraram projetos. O desenho de Marcello Gandini foi o escolhido por Paolo Stanzani. A dupla já trabalhara junta há muito tempo, mais precisamente desde 1968, quando projetou o Lamborghini Miura. O próprio Ferruccio Lamborghini era um dos parceiros da empreitada, mas viu que o barco iria naufragar e se retirou.

O projeto do EB110 era ousado. Naquela época a Ferrari ditava tendência com o F40 e seu V8 biturbo 3.0 de 480 cv, mas que era um carro propositalmente espartano para obter o máximo de performance possível. A Porsche tinha seu exótico 959, que era um Frankenstein do 911, com 450 cv arrancados de seu tradicional boxer seis cilindros 2.9 litros. Já a Lamborghini estava no topo do mundo com o fascinante Diablo e seu V12 5.7 de 492 cv. 

Artioli sabia que precisava de mais potência, estilo e conforto para superar os <CF36>cavallino</CF>s de Enzo e os touros de Ferruccio. Gandini, que tinha trabalhado no Diablo, trouxe muito do projeto para o EB110. Artioli não gostou e dispensou o designer. Giampaolo Benedini foi contratado para tirar a cara de Lambo do Bugatti. 

O carro

O resultado foi um carro impressionante, mas impossível de não ter reconhecida a essência de um Lamborghini. Seção frontal curta, cabine espremida, portas tipo tesoura e “meio carro” só para acomodar o motor. Um conceito típico que nasceu no Countach, seguiu no Diablo e foi parar no EB110.

E por falar em motor, para Artioli seu carro deveria ter um propulsor capaz de ofender os rivais. Com 3,5 litros e 12 cilindros em V, os engenheiros aplicaram quatro turbinas, duas para cada bancada, que entregavam superlativos 560 cv, conectados a uma caixa manual de seis marchas.

O carro chegou em 1991, e conseguiu fazer sombra aos rivais. No ano seguinte, foi lançada a versão Super Sport, que reduziu o peso de 1.620 quilos para 1.418 quilos, além de elevar a potência para 600 cv. 

A versão era capaz de atingir máxima de 348 km/h e acelerar de 0 a 100 em 3,2 segundos. Números de chamaram a atenção de compradores ilustres como o heptacampeão de Fórmula 1 Michael Schumacher, que comprou um exemplar em 1994, quando era “apenas” campeão mundial.

Com 178 unidades produzidas, o EB110 foi um carro surreal, fruto de uma ideia maluca, que acabou levando Artioli à falência.