Ainda me lembro como se fosse hoje, quando, do alto dos meus 12 anos, (lá em 1991, quando Kurt Cobain ainda era vivo e Axl Rose, magro) deparei com um pôster num álbum de figurinhas de um carro conversível de capô imenso, faróis negros e minúsculos para-brisa e santo-antônio. No canto da foto estava grafado “Dodge Viper RT10 Concept Vehicle”. Pouco tempo depois, a visão tornou-se real, na forma de um dos últimos esportivos puros da indústria, mas que se prepara para morrer em breve.

O Viper foi idealizado pelo lendário Lee Iacocca, inspirado no Shelby Cobra (daí o seu nome). Iacocca sabia que a marca precisava de um carro muito impactante para resgatar a companhia da penúria e uma releitura do clássico de Carrol Shelby seria a solução. O próprio Shelby deu seu aval ao conceito e pilotou o esportivo numa exibição antes das 500 Milhas de Indianápolis de 1990.

A versão definitiva do Dodge Viper chegou ao mercado em 1992, com seu “capôzão” para abrigar um imenso motor V10 8.0 de 400 cv (retirado de um caminhão) que ocupava quase todo o carro. Motorista e passageiro precisavam puxar uma cordinha para abrir o carro que não tinha maçanetas, janelas e nem teto.

Depois era necessário se acomodar praticamente sobre o eixo traseiro, que tinha uma suspensão forjada pelo capeta, de tão dura. Para dar a partida, era obrigatório empurrar a pesada embreagem antes de girar a chave. Uma medida de segurança, caso o bicho não tivesse em ponto morto.

Mas isso fazia do Viper um carro único, um carro para puristas, sem frescuras e quase nenhum conforto.

Mas o grande bote da víbora aconteceu em 1996, quando o modelo ganhou a versão GTS, com carroceria cupê, teto ondulado, maçanetas e janelas. Até airbag tinha. O viper GTS era simplesmente magnífico em termos de design, com clara inspiração no Shelby Daytona. Tinha a corpulência de um muscle car norte-americano, mas com uma sutileza dos cupês europeus.

As faixas que riscavam teto e capô complementavam o conjunto, assim como o bocal de abastecimento, nos moldes dos antigos carros de corrida. A versão também era mais potente, sua cavalaria tinha sido reajustada para 450 cv.

Segunda geração

Em 2002 a Dodge apresentou a segunda geração do esportivo, que passava a se chamar Viper SRT-10 (sigla que daria nome à divisão esportiva da Chrysler). Suas linhas remetiam à primeira geração com versões cupê e roadster, sendo que opção aberta aboliu o santo-antônio.

O SRT -10 também tinha ficado mais potente. O V10 crescera para 8.3 litros chegando a até 535 cv e cambio manual de seis marchas fornecido pela Tremec. Conjunto capaz de fazer com que o esportivo chegasse à velocidade máxima de 310 km/h e quarto de milha (0 a 400 m) em 11,77 segundos.

Reestilização

Em 2007, o supercarro da Cornner Avenue (endereço da linha de montagem da marca em Detroit) passou por uma leve atualização visual e ganhou mais potência sob o capô. Novos ajustes fizeram com que o V10 subisse para 8.4 litros. Assim, o Viper passou a despejar 600 cv nas rodas traseiras.

Mas todo o exotismo do Viper não foi capaz de mantê-lo vivo. Em 2010 a Chrysler anunciou o fim da produção do modelo, que só chegaria à terceira geração em 2013, já sob comando da Fiat.

Naquela época, a divisão SRT se tornou uma marca própria e o novo cupê se chamaria SRT Viper. Apesar da influência italiana no design e arquitetura interna, o modelo mantinha o V10 8.4, mas com 640 cv, caixa manual de seis marchas e tração traseira.

Decadência

Apesar de sua proposta original e desempenho espantoso, o Viper não tinha mais o mesmo apelo como na década de 1990. Além disso, o selo SRT não agregava o mesmo valor que na época em que era Dodge. Assim, a marca SRT não durou dois anos e, em 2015, ele voltou a ser repatriado pela Dodge, além de ter resgatado o sobrenome GTS.
Mas nem isso foi capaz de tirar o Viper do declínio comercial e, nesta semana, a FCA anunciou o fim do modelo, pela segunda vez. Segundo a FCA, o Viper sairá de linha em 2017.

Para marcar a despedida, serão lançadas cinco edições comemorativas que remetem às versões especiais e de competição ao longo dos 25 anos do modelo, como a “GTS-R Commemorative Edition ACR”, a “ VooDoo”, “ACR”, “Snakeskin Edition GTC” e “Dealer Edition” que, juntas, somam 217 unidades.