O repúdio à forma grotesca do caixeiro viajante Gregor, descrita por Franz Kafka em “A Metamorfose”, certamente é uma das grandes angustias da literatura universal. Portanto, na indústria de automóveis, as metamorfoses são corriqueiras e necessárias, uma vez que um estilo de carroceria em voga hoje não terá a mesma aceitação amanhã. E nesse cenário os monovolumes, ou minivans, aos poucos estão se tranformando em utilitários-esportivos (SUV), com maior apelo comercial. 

As minivans ganharam projeção em meados da década de 1980, principalmente na indústria francesa, uma das pioneiras ao aliar a comodidade de um automóvel de passeio a uma arquitetura multiuso. No entanto, o conceito de carroceria que no resto do mundo está em declínio, inclusive o Brasil, também atingiu as marcas gaulesas.

Fabricantes como Renault e Citroën passaram a dar mais atenção para os SUVs do que para seus monovolumes. Já a Peugeot praticamente aboliu as minivans de sua gama, com as novas gerações dos modelos 3008 e 5008 que ganharam formas de utilitário-esportivo, com compartimento do motor destacado ao contrário dos anteriores que uniam as três seções (motor, cabine e bagageiro) entre as colunas.

No entanto, o apelo comercial dos jipinhos, seu visual robusto, a altura elevada do solo e, em muitos casos, a habilitação para trafegar em terrenos acidentados, caiu no gosto dos consumidores. 

Perda de terreno

Para se ter uma ideia de como os monovolumes perderam espaço no mercado europeu, no primeiro semestre deste ano os utilitário-esportivos compactos cresceram 17% em relação ao seis primeiros meses de 2015, enquanto os monovolumes tiveram uma aceleração de apenas 1% no comparativo entre os dois períodos, de acordo com o boletim divulgado pela JATO Dynamics, que mensura o desempenho da indústria automotiva em escala global.

Em números, os jipinhos emplacaram 733 mil unidades, enquanto os monovolumes venderam 493 mil. Analisando friamente os números, não há como negar que o volume de quase meio milhão de unidades é expressivo. No entanto, o que chama atenção é o número de opções no varejo do Velho Mundo. O segmento de monovolumes médios conta com 18 modelos no território europeu. Já os SUVs compactos têm um leque de 32 modelos

No Brasil

No mercado brasileiro, as minivans praticamente desapareceram do mercado. Se na virada do milênio a PSA Peugeot-Citroën apostou no Xsara Picasso e a Renault no Scenic, atualmente apenas a Citroën ainda aposta no nicho com a dupla C4 Picasso e Grand C4 Picasso, que surgem como opções mais sofisticadas ao C3 Picasso. 

Atualmente há pouquíssimas opções nacionais, que se resumem ao Chevrolet Spin, Honda Fit e Fiat Idea, além do caçula da Citroën. As demais opções são importadas, como Mercedes-Benz Classe B, BMW Série 2 Active Tourer e Kia Carnival. 

Decadência

Somados, todos os mode[/TEXTO]los emplacaram entre janeiro e setembro 40 mil unidades. Um volume ínfimo se comparado ao montante do mercado que acumula 1,45 milhão de licenciamentos, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Ou seja, no Brasil os monovolumes correspondem a menos de 3% do mercado.

Por outro lado, os utilitário-esportivos (SUV) emplacaram nada menos que 222 mil unidades. Volume que ocupa 16% do mercado. 
Por aqui a disparidade entre minivans e SUV ainda é maior que na Europa. Se por aqui temos nove opções de monovolumes, no segmento de SUV as opções sobem para 40 modelos. Trata-se do segmento com maior número de concorrentes, que preenchem colunas de preços entre R$ 62 mil e R$ 900 mil.

Saiba mais:

A Renault foi a pioneira no segmento de monovolumes compactos com a Espace, lançada em 1984. De lá para cá, praticamente todos os fabricantes passaram a oferecer monovolumes em suas gamas. A fabricante que chegou a representantes como Scenic, Grand Scenic e Espace, aposentou a versão intermediária e renovou a minivan compacta e a grande, que apostam num estilo mais esportivo, com teto mais baixo, pneus maiores e maior altura livre do solo. Por outro lado, a Renault conta com três utilitários-esportivos em seu portfólio: Kaptur, Koleos e Kadjar. No Brasil, a marca aposentou o Scenic e preencheu a lacuna com o Duster, e já confirmou o Koleos e também o Kaptur.

A marca do duplo chevron é quem ainda mais aposta no segmento. Na verdade não há disparidade em relação à Renault e são apenas três modelos, C3 Picasso (de geração à frente do modelo vendido por aqui), C4 Picasso e Grand C4 Picasso, o último com sete lugares. No entanto, a gama de utilitários-esportivos atualmente conta com dois modelos: C4 Cactus e C4 Aircross (clone do Peugeot 4008). A marca ainda conta com o bugue elétrico E-Mehari e ainda poderá lançar uma versão de entrada com base no conceito Aircross, apresentado em 2015. No Brasil, a marca comercializa uma versão aventureira do C3 Picasso, que atende pelo nome de Aircross, mas manteve a importação em doses homeopáticas do C4 Picasso e Grand C4 Picasso.

Se as duas conterrâneas ainda reservam espaço para as minivans, a marca do Leão resolveu abolir a categoria de line-up. Os antigos monovolume 3008 e 5008 ganharam novas gerações recentemente e se transformaram em SUVs. Assim, a marca passa a contar com quatro opções de utilitários-esportivos no mercado europeu, onde já são vendidos o 2008 (que é oferecido por aqui) e também o 4008. Chama atenção que a dupla 3008 e 5008, em suas versões originais, contribuíram para 50 mil unidades no segmento de monovolumes. Por aqui a marca ainda oferece o 3008 de geração passada, assim como o caçula 2008. No entanto, a marca não confirma se trará o novo 3008 para cá.