O banco Santander projeta melhoria no cenário macroeconômico brasileiro no médio prazo, apesar de ver prováveis oscilações no mercado financeiro durante o período eleitoral em 2018. É o que afirma Everton Gomes, economista do banco, que visita Belo Horizonte para apresentar perspectivas aos acionistas e investidores da instituição financeira. Everton conversou com o Hoje em Dia na tarde desta segunda-feira (28). Confira a entrevista.

Qual a visão do Santander para o cenário macroeconômico para os próximos meses?
Assim como a maior parte do mercado, estamos com visão relativamente otimista. Diferente dos últimos anos, vários fundamentos melhoraram. Há um conjunto de fatores. A balança comercial está batendo recordes históricos. A inflação tende a ficar abaixo da meta (3,8%) neste ano, com 4,2% no ano que vem e o Banco Central está revisando a meta para 4% no médio prazo. Com a inflação indo para baixo, a tendência é o Banco Central cortar juros. Estamos falando de um alívio bem significativo. Além disso, o clima está ajudando e temos safras bem melhores. Ainda contribuem, o saque do saldo das contas intativas do FGTS e a melhora nos preço das commodities – o minério de ferro com valorização de 60% do que custava há um ano.

Isso se reflete em crescimento?
Acreditamos que a economia tende a voltar a crescer nos próximos semestres, puxada por bens de consumo duráveis, como veículos. Em números, para este ano prevemos crescimento de 0,5% no PIB, com 2,5% no ano que vem. E a partir de 2019, ao redor de 3%.

Esses números envolvem a perspectiva de uma Reforma da Previdência?
Nossos cenários contemplam uma reforma da Previdência relevante. Não necessariamente neste ano, mas uma reforma nos próximos anos. A dúvida se o crescimento vai ser sustentável no médio prazo tem relação com as reformas do governo. É preciso reformas em geral para que o país volte a crescer de forma sustentável, no médio prazo. Os países que conseguiram crescer de forma mais acelerada, como China e Coréia do Sul, são aqueles que conseguiram reformar as instituições e se abrir mais para o mundo. Num cenário em que a reforma não é aprovada, há consequências diretas e indiretas. A deterioração das contas públicas leva a taxa de juro elevada, há menos recursos para investimento em infraestrutura...

O senhor falou que a retomada do crescimento deve vir do consumo de bens duráveis. Anteriormente - e o próprio presidente do BC reconheceu isso recentemente - falava-se que o crescimento ocorreria a partir da retomada dos investimentos. Por que isso mudou?
Tanto investimento quanto consumo de bens duráveis são sinais de retomada. Para trocar de carro e de casa é preciso ter patamares de confiança elevados, assim como para se fazer investimentos. Os investimentos têm decepcionando um pouco, comparados ao consumo de bens duráveis, mas eles irão chegar – a queda no custo da alavancagem, a menor taxa de juros, tende a acelerar o investimento. A médio prazo a gente espera que o investimento volte.

O cenário eleitoral interfere nessas projeções?
O mercado no ano que vem vai ser bastante volátil. A situação fiscal é o maior desafio do país e é difícil resolvê-la sem num cenário instável. A perspectiva fiscal é de ajuste nos próximos quatro anos. A gente vai ter superávit no país somente em 2022, mais ou menos. Existe o risco de entrar alguém contra o ajuste fiscal, mas nos parece um risco baixo, dado que há um senso de urgência no sentido de evitar a deterioração das contas no médio prazo. A política é importante. As eleições devem mexer com as ativos, mas acreditamos que, dado o tamanho da consciência sobre a necessidade do ajuste, os próximos governos vão promovê-lo no médio prazo.