Uma disputa com candidatos que atravessam todo o espectro ideológico, mas que dificilmente será definida pela posição política. Em tempos de polarização acirrada, a corrida pela Prefeitura de Belo Horizonte mostra uma tendência de vinculação à centro-direita, na definição dos próprios concorrentes. Muitas vezes até em desacordo com a linha dos partidos que representam. Casos de João Vítor Xavier (o Cidadania nasceu como legenda de orientação comunista e depois se transformou no Partido Popular Socialista); ou de Luísa Barreto, num PSDB que, ao longo de sua história sempre tendeu à centro-esquerda.

Algo que, para o cientista político Adriano Cerqueira, apenas reflete a perda de identidade das siglas e a preocupação pessoal em encontrar uma estrutura que permita concorrer em condições favoráveis. Além de uma busca de alinhamento com uma parcela da população que, a reboque da eleição presidencial, prefere uma cartilha conservadora nos costumes e liberal na economia. "Hoje é mais importante o eleitor se convencer da pessoa do candidato do que da questão ideológica em si. Para ganhar eleição, o posicionamento político não é tão importante".

Cerqueira cita como exemplo o do próprio prefeito e candidato à reeleição Alexandre Kalil (PSD), que concorreu em 2016 sem um viés definido. "Ele conseguiu uma coisa interessante que foi conquistar uma parcela do eleitorado mais à esquerda, que pode definir a disputa. Ao mesmo tempo, indica um candidato a vice (Fuad Noman) que tem abertura no empresariado, para reconquistar as pontes com o setor do comércio, insatisfeito com as decisões tomadas durante a pandemia". Fiel a seu estilo, o prefeito deixou claro como a questão ideológica fica em segundo plano na sua visão. "Isso não importa. Tem que esquecer essa história de que esquerda é quem cuida de pobre e que direita só gosta de rico. Tem que ajudar quem precisa".

Justamente pelo bom trânsito político de Kalil, o especialista acredita que a única possibilidade de uma disputa ideológica se daria com o nome mais à direita: o do deputado estadual Bruno Engler (PRTB). "Ele tem procurado ao máximo vincular sua imagem com a de Bolsonaro, e pode arrebanhar um número significativo de votos, o que poderia ser ainda mais significativo num eventual segundo turno, e fazer da disputa algo digno de ringue de boxe. Por outro lado, o voto de esquerda iria para seu adversário. Em todos os outros cenários a questão se dará no campo pessoal, na tentativa de construir e desconstruir uma imagem, não numa eventual polarização".

'Donos' de partido
Para o especialista, a lei está na raiz da perda de identidade das legendas. "Infelizmente a legislação eleitoral brasileira dá muito poder a quem é 'dono' do partido. Essa questão fica mais pessoal do que ideológica. Poucas legendas hoje têm uma forte carga ideológica, e normalmente estão nos extremos. Hoje o que se tem são grupos políticos em defesa de seus interesses".

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