"Só rezem por mim", pediu a haitiana Vil Wildrene aos pais quando deixou o Haiti, em abril. Desempregada, a mulher de 35 anos partiria dali para uma viagem de um mês em busca de prosperidade no Brasil. Deixava para trás a filha Fabienka, de 11. "Todos eles ficaram orgulhosos quando eu disse que faria a viagem. O Brasil é muito bem visto no Haiti", contou.

Juntou, entre empréstimo no banco e ajuda de parentes, U$ 3,5 mil. O valor equivale a mais de um ano de salário de seu último emprego, como camareira de um hotel. Nas mãos, apenas uma maleta de roupas, uma sacola amarela com documentos pessoais e uma blusa de frio. Era o suficiente para fazer a travessia, que incluía passagens pela República Dominicana, Equador e Peru.

Como não tinha visto, Vil optou por passar em um trajeto ilegal, operado por coiotes. Vil contou que na fronteira entre o Peru e o Equador, andou por cinco horas em um grupo de 15 imigrantes - cinco delas, mulheres. No caminho, todo percorrido durante a noite para evitar a polícia, tinham apenas água e biscoitos para consumir. Ela disse que cada um precisou pagar US$ 100 aos coiotes, todos peruanos, para atravessar Huaquillas, na divisa com o Peru.

O desespero começaria no meio do caminho: foi roubada pelos próprios condutores da travessia ilegal. "Levaram a minha roupa e a maior parte do dinheiro." De tudo que carregava, ficou apenas com a roupa do corpo - um par de tênis azuis, blusa decotada, jaqueta e uma calça jeans - e uma sacola de plástico amarela, onde guardava o valor das passagens de ônibus. "Não sabia o que fazer. Pensei em voltar, mas já não teria dinheiro. Decidi ir até o fim", explicou.

Os últimos cinco dias de viagem até o Brasil não registraram outros problemas. Quando chegou a Cuzco, no Peru, ficou em um quarto de hotel pago por colegas que também atravessaram Huaquillas. Para chegar até Rio Branco (AC), foi de ônibus.

Já em São Paulo desde a segunda-feira (18) Vil quer aprender português. As aulas são oferecidas pela Missão Paz gratuitamente, por voluntários. Apesar de não conhecer ninguém na capital, ela esteve desde o primeiro dia na cidade na fila do abrigo para fazer entrevistas de emprego. "Quero algum trabalho em que eu tenha onde dormir, porque ouvi dizer que o aluguel está muito caro", disse.

A um mês longe de casa, ainda não conseguiu contatar ninguém da família. Mas diz sonhar com a filha Fabienka todos os dias. "Quero juntar dinheiro para devolver o que minha família emprestou para que eu viesse. E para dar uma vida melhor para a minha filha, quem sabe trazer ela pra cá." Mas, por enquanto, o olhar aos desconhecidos à sua volta descreve a incerteza do que virá. "Vim atrás de uma vida nova, de um mundo novo. Mas, por enquanto, só sei que estou aqui e bem."


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.