A paralisação de nove minas e duas pelotizadoras operadas pela Vale no estado, ação necessária para descomissionar (desativar e reintegrar à natureza) as barragens construídas nos mesmos moldes de Córrego do Feijão, em Brumadinho, vai reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Já em 2019, a previsão é a de que haja queda de 0,47% na soma das riquezas mineiras, o equivalente a R$ 2,81 bilhões de um PIB estimado em R$ 597,76 bilhões. A título de comparação, o montante é maior do que a dívida de Minas com os servidores, que ainda não receberam o 13º salário, de R$ 2,1 bilhões. E, no longo prazo, o rombo pode piorar.

Os dados foram levantados pelo Núcleo de Estudos de Modelagem Econômica e Ambiental Aplicada (Nemea), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e divulgados pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar). 

O impacto de 0,47% no PIB, conforme o estudo, vai vigorar no curto prazo, impactando 2019 e os próximos dois anos. A partir de 2022, quando começa o “longo prazo”, a previsão é a de que o reflexo negativo salte para 0,60% por ano. Se o índice fosse aplicado sobre o valor projetado para 2019, a retração seria de R$ 3,9 bilhões. 

De acordo com a professora da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG Débora Freire Cardoso, uma das responsáveis pela pesquisa, o rombo vem em péssima hora. O Estado atravessa uma crise fiscal e possivelmente não terá fôlego para auxiliar os municípios, que vão amargar perdas na receita. 

Por terem as minas sediadas nos próprios territórios, Ouro Preto, Congonhas, Itabirito, Rio Acima e Brumadinho serão os mais afetados. 

O fato de o Estado depender historicamente da atividade extrativa faz com que o problema seja ainda maior.

“Com a interrupção das operações das minas, centenas de empresas deixarão de fornecer insumos para a Vale. E esses fornecedores são dos mais diversos segmentos, que serão muito impactados. Num primeiro momento, no curto prazo, há um choque. Depois de três anos, há uma espécie de acomodação em que os planos de investimento dos setores, a realocação de emprego e de capital são efetivados completamente”, diz a especialista.

A redução no PIB vem acompanhada de redução de 0,26% no curto prazo no consumo das famílias e de 0,53% no longo prazo. Além disso, mais de 15 mil postos de trabalho deixariam de ser criados. Como reflexo, a arrecadação de impostos indiretos no Estado (IPI, ICMS) cairia em R$575 milhões.

Os investimentos também serão achatados.A previsão é a de que os aportes, que geram empregos e atraem tecnologia, sejam reduzidos em 1,04% a partir de 2022. Já as exportações registrarão retração de 0,90% na mesma base de comparação. 

“É um efeito cíclico. Os setores estão interligados, e a mineração é muito forte em Minas Gerais”, diz Débora. 

A própria indústria extrativa mineral deve encolher, conforme análise do pesquisador da Fundação João Pinheiro Glauber Silveira, a exemplo do cenário vivenciado quando a barragem de Fundão, operada pela Samarco em Mariana, rompeu, deixando 19 mortos, em 2015. 

Um ano antes, em 2014, a mineração respondia por 6,1% da economia mineira. Em 2015, passou para 3,6% e, no ano seguinte, em 2016, despencou para 2,9%.

“Centenas de empresas deixarão de fornecer insumos para a Vale. E esses fornecedores são de diversos segmentos, que serão muito impactados. Num primeiro momento, há um choque. Depois de três anos, uma espécie de acomodação” .

 

Comércio, transportes e até educação sofrerão prejuízos
 

Setores diversos, como transportes e comércio, devem amargar fortes perdas em decorrência da interrupção das operações das minas a montante da Vale, conforme aponta levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos de Modelagem Econômica e Ambiental Aplicada (Nemea), da UFMG. 

Com o poder de compra do consumidor abalado, o comércio, tanto varejista quanto atacadista, deve registrar queda de 0,24% no curto prazo e de 0,33% no longo prazo em Minas.

Nas cidades onde estão localizados os empreendimentos cujas operações serão suspensas (Brumadinho, Congonhas, Itabirito, Nova Lima, Rio Acima e Ouro Preto), o impacto será maior, mas nem a capital escapa de um baque nos números, mesmo que isso signifique crescer menos. 

“O comércio das cidades onde estão as minas vai parar, mas as previsões para Belo Horizonte ainda são boas e podem ajudar a superar a queda provocada pela paralisação”, afirma a economista da Câmara dos Dirigentes de Belo Horizonte (CDL-BH), Ana Paula Bastos.

Com a perda de fôlego do comércio e a redução do minério extraído, o transporte de carga deve cair 0,62% no longo prazo e 0,56% já a partir de 2019. Na avaliação do vice-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas em Minas Gerais (Fetcemg-MG), que assume a presidência da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) em março, Vander Costa, o setor será um dos mais prejudicados.“Podemos esperar um cenário de prejuízo e desemprego até que as pessoas migrem para outra atividade econômica”, afirma o representante do segmento.

Ele destaca que centenas de empresas, e até mesmo caminhoneiros autônomos, trabalham transportando minério. “Essas pessoas vão perder a renda”, lamenta. Critica ainda <CW-3>o descomissionamento das barragens a montante. “Essas barragens tinham que ser fiscalizadas sempre, não deviam esperar a barragem romper e gente morrer para começar a atuar. Se elas são perigosas, tinham que ser construídas com outro método”, diz.

Até a educação particular vai sofrer com a interrupção das atividades minerárias. Com a queda na renda, a previsão é a de o segmento retraia 0,26% no curto prazo e 0,40% no longo prazo. 

Os serviços jurídicos, de contabilidade e consultoria também terão impacto. Até 2022, eles devem retrair 0,57% e, após esse período, 0,91%. 
A Vale ainda não se posicionou sobre os reflexos na economia provocados pela interrupção das atividades nas minas.