Na eleição mais acirrada dos últimos tempos, com possibilidade de recorde de indecisos, os eleitores de Belo Horizonte vão às urnas hoje para decidir quem vai comandar a capital nos próximos quatro anos. O clima é de total indefinição, com os principais institutos de pesquisa apontando empate técnico entre os dois candidatos. Alexandre Kalil (PHS) e João Leite (PSDB) disputam voto a voto, numa campanha marcada por ataques ácidos e ofensas mútuas.

A “pancadaria” teve início com a definição da disputa no segundo turno. As acusações permearam a propaganda eleitoral, os debates, Facebook e grupos de WhatsApp. Vinte e nove ações judiciais das duas campanhas foram parar no Tribunal Regional Eleitoral.

Em um dos vídeos divulgados pela equipe do tucano, proibido posteriormente pelo TRE, Kalil, em uma entrevista a um programa da Fox Sport, diz preferir tomar uísque a frequentar igreja e critica o dízimo.

Kalil ainda foi massacrado pelos depoimentos de ex-funcionários da empreiteira Erkal, de propriedade dele, por não recolhimento de FGTS dos trabalhadores. A dívida de IPTU do empresário, conforme o Hoje em Dia revelou, se transformou no calcanhar de Aquiles do candidato novato.

Por outro lado, João Leite teve que encarar o rótulo de “defensor de bandido” pela atuação na Comissão de Direitos Humanos. Outra tática do adversário para abalar o tucano foi vinculá-lo ao senador Aécio Neves (PSDB), que está com a imagem arranhada desde que virou alvo no Supremo Tribunal Federal em inquérito da operação “Lava Jato”.

Em outra frente de batalha, o deputado foi contestado por ter empregado parentes na PBH, receber supersalário na ALMG, além de ter o nome supostamente incluído na polêmica de lista de Furnas.

Desconstrução
Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos, Carlos Manhanelli, estagnado nas pesquisas após vencer o primeiro turno com certa vantagem, João Leite se viu obrigado a deixar de lado a figura de “bom moço” para partir para o ataque e tentar desconstruir o rival.
Já Kalil cometeu gafes diante de provocações, como, por exemplo,  quando disse em um dos debates que pode até roubar, mas não recebe propina. “O resultado disso é uma caixinha de surpresas. Tudo vai depender de como as pessoas vão reagir na urna a esses comportamentos”, diz.

Para Malco Camargos, doutor em Ciência Política e professor da PUC Minas, a agressividade entre o deputado e o ex-presidente do Atlético não se deve só à disputa apertadíssima. Mas também tem como pano de fundo a força das redes sociais.

“As vidas estão expostas na internet. São poucos os eleitores que assistem aos debates e à propaganda política. Mas os embates ecoam rapidamente nas redes sociais. Tudo é visto e comentado por um universo grande de pessoas”, afirma.

Segundo ele, o eleitor até pode dizer que não gosta do clima de bangue-bangue. “Mas ele acha mais interesse comentar o enfrentamento entre os candidatos do que uma coisa morna, quando só as propostas, quase sempre parecidas, são apresentadas”, diz.

 

ENTREVISTA ALEXANDRE KALIL

Me tornei um cara melhor”

Qual a sua avaliação sobre o período da campanha?
Foi divertido, me tornei um cara melhor. Eu aprendi que não sabia nada sobre precisar, sobre ajudar, sobre necessidade, carência, e achava que sabia. Hoje eu sou um homem completamente diferente de três meses atrás.

Como foi a maratona? Está se sentindo cansado?
Não estou cansado não. Estou tranquilo, estou revigorado. Foi muito rica, muito interessante e é uma oportunidade rara que o homem pode passar na vida, quando ele realmente entra numa disputa para a prefeitura de uma capital tão importante.

Que lugares conheceu em BH que ainda não havia conhecido e que mais chamaram a atenção?
O lugar que mais me chamou a atenção, por incrível que pareça, foi a região Centro-Sul. Eu acho que essa região desconhece completamente o sofrimento que se passa em Belo Horizonte.

Qual o momento de maior emoção?
Acho que foi quando eu passei a conhecer as ocupações, os trabalhos voluntários das creches, os trabalhos das comunidades. A grande emoção é saber que, diferentemente do que todo mundo pensa, a comunidade carente se ajuda muito, se completa muito e o pouco que precisa do poder público lhe é negado.

E o momento de maior tensão ou tristeza?
Foram os ataques. Fui muito atacado por gente que sabe que é mentira. Saiu da boca de gente que sabe que é mentira. Fez o ataque do poder para o poder, querendo, simplesmente, o poder. Ele (João Leite) tentou desconstruir um cara que ele conhece há 40 anos e isso me decepcionou muito.

Como o homem Alexandre Kalil sai dessa campanha?
Saio feliz. Saio mais humano, mais generoso, mais caridoso, mais compreensivo. Saio sabendo que nós temos um país pobre, um país que é desumano e que a política não tem conhecimento do que esse povo está passando.

 

ENTREVISTA JOÃO LEITE

“Foi uma campanha feita com verdade”

Qual a avaliação do candidato João Leite sobre o período da campanha?

Percorremos toda a cidade conversando com as pessoas, ouvindo a história delas, ouvindo sobre os problemas que afetam cada comunidade e levando nossas propostas. E o principal: foi uma campanha feita com verdade, com integridade, com respeito às pessoas.

Como foi a maratona? Está se sentindo cansado?
Não há espaço para cansaço quando o que está em jogo é o futuro da nossa cidade. Eleição é coisa séria. O resultado das urnas vai impactar diretamente a vida de milhares de pessoas. Os candidatos devem mesmo ser exigidos ao máximo, pois não pode restar dúvida na hora da escolha. O prefeito carrega enorme responsabilidade.

Que lugares conheceu em Belo Horizonte que ainda não havia conhecido?
Sou filho de Belo Horizonte. Nasci na Vila Oeste. Desde a época em que jogava futebol amador sempre transitei por toda a cidade. Depois, como vereador, secretário municipal e deputado, percorri BH inteira. São praticamente 60 anos vivendo aqui, na cidade que amo, que criei minha família. Eu conheço BH e as pessoas dessa cidade.

Qual o momento de maior emoção? E o de maior tensão ou tristeza?
Sem dúvida o mais emocionante é o carinho das pessoas, o contato, o abraço. Ouvir a história delas é muito gratificante. É assim que a política deve ser feita, com abertura e transparência, discutindo e encontrando juntos soluções para cada comunidade, trazendo à luz as pessoas que estavam invisíveis, que tiveram seus direitos subtraídos. Sempre com a verdade. Guardarei na memória cada encontro que tivemos.

Como o homem João Leite sai dessa campanha?
Saio ainda mais convicto de que só a política, a boa política, decente e honesta, pode transformar de verdade a vida das pessoas. As soluções têm de surgir do entendimento e do diálogo. Acredito na política feita com princípios, com retidão.