A inflação oficial do país em 2020, refletida no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), chegou a 4,52%, segundo divulgou, ontem, o IBGE. Maior percentual anual registrado desde 2016, o IPCA foi puxado, sobretudo, pela alta nos preços de alimentos e bebidas, que bateu em 14,09% e refletiu um movimento global devido a impactos econômicos da pandemia da Covid-19. O índice, nesse caso, foi o mais elevado para tais produtos desde 2002 (19,47%).

Na capital mineira, que, conforme noticiado na terça-feira pelo Hoje em Dia, registrou a quarta maior alta de preços da cesta básica entre as capitais do país (27,8% ao longo de 2020), teve o IPCA acima da média brasileira, também no ano passado: 4,99%. De qualquer forma, ambos os percentuais estão acima da meta de elevação do custo de vida fixada pelo Banco Central para o período, de 4%, e acendem o alerta de que o processo inflacionário possa acelerar nos próximos meses.

“Essa é de fato a tendência, na medida em que o cenário que pressionou a inflação no ano passado, de pandemia, dólar alto e exportações em crescimento, por exemplo, continua. E, agora, ainda com agravantes, como o fim de medidas de auxílio econômico à população”, diz a economista e professora das Faculdades Promove, Mafalda Ruivo Valente. Por isso, para ela, previsões de mercado de que a inflação possa ultrapassar 6% no acumulado de 12 meses, até o meio do ano, são “bastante factíveis”.

De acordo com o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov, o crescimento dos preços de alimentos e bebidas, que mais contribuíram para o IPCA de 2020, foi provocado por fatores como a demanda por esses produtos e a alta do dólar e dos preços das commodities no mercado internacional. “Foi um movimento global durante um ano marcado pela pandemia de covid-19”, disse o gerente.

O resultado do ano mostrou que os preços do óleo de soja com 103,79% e do arroz com 76,01% dispararam no acumulado de 2020, mas outros itens importantes na cesta das famílias também subiram expressivamente, entre eles, o leite longa vida (26,93%), frutas (25,40%), carnes (17,97%), batata-inglesa (67,27%) e tomate (52,76%).

A habitação, com 5,25%, também contribuiu para o comportamento da inflação, influenciada pelo aumento da energia elétrica (9,14%). O efeito do dólar sobre os preços dos eletrodomésticos e artigos de TV, som e informática provocou impacto nos artigos de residência, que também pesaram mais. 

De acordo com o IBGE, em conjunto, alimentação e bebidas, habitação e artigos de residência responderam por quase 84% da inflação de 2020. O vestuário foi o único grupo a apresentar variação negativa (-1,13%) explicada pelo isolamento social.

Com Agência Brasil

IPCA de BH em dezembro ficou entre os cinco maiores do país

Os dados do IPCA de dezembro, também divulgados ontem pelo IBGE, apontaram que o índice para a Região Metropolitana de BH (1,53%) representou o quinto maior resultado mensal entre as dezesseis áreas pesquisadas – menor apenas do que São Luís (2,18%), Porto Alegre (1,85%), Rio de Janeiro (1,62%) e Recife (1,60%). No país, no último mês de 2020, a variação mensal foi de 1,35%.

O grupo Habitação (3,27%) impactou o índice geral de novembro em 0,46 pontos percentuais (p.p.) na cidade. O crescimento foi influenciado principalmente pelo aumento da energia elétrica residencial (8,29%), provocando o maior impacto individual no índice (0,37p.p). Ainda se deve destacar o gás de botijão, que aumentou 2,61%, com impacto de 0,03p.p.

Em Alimentação e Bebidas (2,23%), o aumento foi influenciado, principalmente, pelas frutas (14,27%), batata (12,47%), arroz (4,80%), leite longa vida (3,29%) e carnes (1,66%), com impactos positivos de 0,15p.p., 0,04p.p., 0,04p.p., 0,03p.p. e 0,05p.p., respectivamente. “Ainda podemos destacar o aumento do feijão carioca (6,84%) e do café moído (5,73%), ambos com impacto de 0,02p.p. no índice. O aumento em alimentação fora do domicílio (0,55%) se deve principalmente à refeição (1,05%), impactando o índice em 0,04p.p”, informou o Instituto.

No grupo de Transportes (1,57%), os aumentos de 29,89% nas passagens aéreas, de 1,62% no automóvel usado e de 1,23% na gasolina impactaram o índice, respectivamente, em 0,11p.p., 0,04p.p. e 0,07p.p. Em Vestuário (1,71%), as roupas aumentaram 1,99% e o impacto no índice foi de 0,06p.p. Já no grupo Artigos de residência (1,82%), o destaque é para o item mobiliário (3,09%), com impacto de 0,04p.p. no índice. Em Comunicação (0,79%), o aumento do subitem aparelho telefônico (2,56%) impactou o índice em 0,03p.p. Por outro lado, a queda no grupo Educação (-0,45%) foi provocada principalmente pelos cursos regulares (-0,62%), causando um impacto de -0,02p.p. no índice final. 

 

ALÉM DISSO:

Apesar de ter superado o centro da meta de inflação para 2020 (4%) fixada pelo Banco Central, o IPCA anual foi celebrado pela instituição. Ontem, o diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra, disse que o resultado de 4,5% foi “espetacularmente” melhor do que uma inflação de 2,1%, prevista pelo próprio banco em setembro. 

“Estamos entregando uma inflação acima do centro da meta, o que nunca é desejável. Mas, como a gente está sempre perseguindo o centro da meta, que era de 4% em 2020, 4,5% é espetacularmente melhor que os 2,1% que a gente imaginava no final de setembro”, disse Serra.

Para a professora Mafalda Valente, tal análise, embora possa parecer estranha, faz sentido. “Economia não é uma ciência exata. Quando se traça metas como a de inflação, é natural que projeções precisem ir sendo ajustadas. No caso, o percentual ficou acima da meta, mas próximo do que foi planejado”, explicou ela.