A retomada de voos de grande porte no Aeroporto da Pampulha, liberada pela portaria 911, publicada ontem no Diário Oficial da União, é motivo de controvérsia entre empresários do setor de hotelaria e comércio, associações de moradores, especialistas e, claro, a BH Airport, que gerencia o Aeroporto de Confins e se coloca como a principal afetada pela medida.Pela portaria, que revoga decisão do próprio governo de 11 de maio, ficam liberados jatos comerciais no terminal.

O documento foi assinado pelo ministro interino dos Transportes, Fernando Fortes Melro Filho.Somente aviões com até 70 lugares estavam permitidos na Pampulha – como os turboélices ATR, utilizados pela Azul em voos regionais no terminal até o início do ano passado.Hoje somente a Passaredo (ligando BH a Uberaba e Ribeirão Preto) e o programa de voos regionais da Codemig operam na Pampulha.

Defensor da volta dos voos de grande porte para a Pampulha, o prefeito Alexandre Kalil vibrou com a resolução. “A decisão do Ministério dos Transportes representa uma vitória da população de Belo Horizonte. Parabéns aos belo-horizontinos”, disse.
Um cronograma com os próximos passos para a retomada dos voos comerciais no Aeroporto da Pampulha será traçado a partir da próxima semana

Confins

Um dos principais críticos à medida é a BH Airport, que teme a perda de força de Confins com a concorrência. A concessionária afirma que a retomada da Pampulha configura sério rompimento de contrato e dificulta a consolidação de Confins como um hub de voos domésticos e, por consequência, a atração de rotas internacionais. A concessionária investiu R$ 750 milhões só nas obras do terminal 2.

Hotelaria e comércio

O BH Convention & Visitors Bureau, que atua pelo aumento da demanda turística na capital, afirma ser contra a possibilidade de transferência de parte dos voos de Confins para a Pampulha.

“A gente vê como retrocesso. Tanto pelo investimento que foi feito pela BH-Airport, quanto pelo fato de a medida poder reduzir a permanência do turista de negócios na cidade”, afirma o presidente da entidade, Jair Aguiar.

Ele entende que, com a mudança, a tendência é que se aumente o turismo “bate-e-volta” – quando a pessoa chega à capital para um evento e vai embora no mesmo dia. “Hoje o tempo de permanência em BH é de duas diárias e meia. Isso vai piorar”, diz.

A Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) tem visão diferente. “Vai ser muito positivo para a cidade e para o comércio. Teremos mais facilidade de acesso e maior disponibilidade de voos. Isso cria um fator positivo de atração de conexões para o turismo, seja ele de negócios ou de entretenimento”, afirma o vice-presidente da CDL, Marcos Innecco Correia.

Ele acredita que BH deixa de receber eventos e visitantes devido ao grande tempo de descolamento entre a região central e Confins. “Uma pessoa perde pelo menos metade do dia para ir e voltar. Chegando pela Pampulha, ela ganha tempo para visitar o comércio e pontos turísticos”, reforça.

A Infraero, estatal que administra o aeroporto, não quis comentar o assunto.


Gol age rápido e pede à Anac aval para operar no aeroporto

Alheias às polêmicas que cercam a liberação dos voos, companhias aéreas já se mobilizam. Por meio de nota, a Gol informou que solicitou ontem mesmo à Anac aval para operar voos regulares no Aeroporto da Pampulha e afirmou que já está apta para a operação no terminal. Os destinos de maior interesse seriam Brasília e São Paulo.

A Azul disse, por nota, que acompanha o processo de autorização para voos com aeronaves maiores na Pampulha e que avaliará os próximos passos. Diferentemente do posicionamento que vinha adotando, a companhia não descartou o retorno à Pampulha.
Já a Latam afirmou que no momento não estão previstos voos para o terminal.

Enquanto as empresas aéreas fazem planos, os moradores da região do aeroporto seguem indignados. Entre os principais temores estão a piora do trânsito, a perturbação e a segurança, como explica Carlos Conrado, membro da Associação Pro-Civitas dos Bairros São Luís e São Jorge.

“Toda a área em volta do aeroporto é congestionada. Já sofremos várias consequências, como a poluição sonora e visual e a perturbação. Vai virar um caos como era antigamente. É um retrocesso”. Conrado também questiona a estrutura do aeroporto, colocando em xeque as condições de o local receber uma demanda maior de passageiros.

“Fizeram uma maquiagem, mas a situação operacional é limitada. A sede inunda com qualquer chuva. Os banheiros tem capacidade para 15 pessoas”, disse.

Contraponto

Celina Borges, da Escola de Arquitetura da UFMG, vê como importante a retomada dos voos na Pampulha. “Belo Horizonte tem uma demanda reprimida por um aeroporto central. Pampulha é fundamental para a dinâmica da cidade. É fundamental que parte dos voos domésticos estejam à disposição do morador com mais facilidade”, diz. “Para o próprio complexo turístico da Pampulha é interessante”, afirma.

Sobre a possibilidade de aumento do trânsito, Celina afirma que o principal problema na avenida Antônio Carlos é o fluxo para os bairros no Vetor Norte e a falta de um sistema de transporte público como metrô. “O transito ali já é complexo e caótico. Não acredito que o aeroporto possa trazer um volume maior. A discussão é de outra ordem”, diz.