O dilema entre adotar uma linha exigente ou liberal na educação dos filhos se tornou frequente na maioria das famílias brasileiras. Atire a primeira pedra aquela mãe de adolescente que nunca buscou o filho de madrugada, depois de inúmeras ligações não atendidas. Aliás, celular hoje é considerado, por muitos genitores, monitoramento de segurança.

Pois essa cultura está diretamente ligada à economia. Os impactos da desigualdade econômica e da crise interferem diretamente na forma como os pais criam os filhos, gerando um fenômeno chamado pais-helicóptero - que estão sempre girando em torno de suas crias.
A consequência desse novo estilo de paternidade passa pela formação de jovens mais dependentes e menos criativos, o que acarretaria em um aumento no custo para os pais.

As afirmações são fruto de um estudo feito pelos pesquisadores Fabrizio Zillibotti e Matthias Doepke, dos departamentos de Economia das Universidades de Yale e de Northwestern, nos Estados Unidos. Conforme o levantamento, quanto maior a instabilidade econômica, mais os pais tendem a exercer um monitoramento intensivo, tentando blindar os filhos de comportamentos arriscados, além de ser uma forma de os genitores tentarem compensar alguma privação que os filhos venham a sofrer em função desse desequilíbrio financeiro.

Por outro lado, quanto menor a desigualdade, maior o número de pais mais liberais na educação.

No Brasil, notoriamente reconhecido pela má distribuição de renda, que se agravou nos anos de recessão, o retrato é de uma legião de pais-helicóptero. De acordo com o último levantamento da World Value Survey (Pesquisa Mundial de Valores), 55% dos pais brasileiros são autoritários, 35% são autoritativos (que ficam o tempo todo em torno dos filhos) e menos de 10% são liberais”. Número bem diferentes de países de economia mais desenvolvida, como EUA e Suécia, em que o índice de pais permissivos gira em torno de 75%.

Segundo Fabrizio Zillibotti, esse novo perfil de educação interfere diretamente no custo de vida da família. “Aumentam os cuidados, o monitoramento e as influências. Os pais são menos liberais e mais autoritários. O Brasil é um ótimo exemplo disso. A parcela dos pais não liberais é muito maior que nos países mais desenvolvidos”, diz.

Zillibotti vê ligação direta entre a forma de educar e as estruturas econômicas e sociais das nações. “Os pais em países mais desiguais são menos liberais. Já em países com tributação mais redistributiva, mais despesas sociais e proteção de direitos civis ainda mais forte, os pais são significativamente mais liberais”, afirma.

Aliado ao fator econômico, os aspectos culturais de cada região também devem ser levados em conta na construção dos pais-helicóptero. Fatores como religião e costumes desses locais também podem interferir nesse cenário. Quem afirma é a especialista em psicopedagogia e em psicoterapia de família e casal, Samira Rodrigues.

“Tantos os fatores econômicos, como os culturais, podem ser com estressores dentro das famílias, gerando tanto uma superpro-teção, como um desmembramento da família”, diz.

A psicopedagoga destaca ainda uma importante diferença entre o modelo de educação entre classes mais altas e mais baixas.
“A rede social da família mais pobre é mais estreita. As pessoas de classes mais baixas têm essa rede mais fortalecida, possuem maior interação com avós e outros parentes. O que, muitas vezes, não acontece nas classes mais altas, em que há uma terceirização da educação, como a participação das escolas que os pais buscam para auxiliar nesse processo”, afirma.


Medo da violência induz postura conservadora em relação às crias

A empresária Tânia Leopoldino, mãe de Bárbara, de 24 anos, e de Gabriel, 16, nunca tinha ouvido falar na expressão “pais-helicóptero”. Mas destaca que a postura mais conservadora se dá em função do medo de que os filhos corram qualquer risco quando estão longe de casa.
“Sou enérgica, cobro dos meus filhos, mas busco o equilíbrio. Confio muito neles, mas não nas pessoas que estão na rua, pela violência. Me preocupo, procuro estar sempre presente”, afirma ela.

Em relação ao filho mais novo, que começa a transição da adolescência para a juventude, a empresária afirma que não tem a intenção de causar qualquer tipo de bloqueio, apenas de orientá-lo para as descobertas da nova fase. “Não quero que ele se sinta retraído. Mas tudo tem seu tempo, seu limite. A gente pode até ser chato às vezes, mas os filhos sentem falta e precisam de atenção e cuidados”, diz.

Questionada se a postura mais protetora e exigente é a ideal para o futuro dos filhos, Tânia é sincera, afirmando que não há receita precisa quando se trata da educação das crias. “Não sei se estou fazendo certo ou errado. Estou indo no que acho melhor para a formação deles”, diz.

Apesar de todo zelo, o caçula da empresária mostra maturidade quando questionado sobre a relação com os pais e como isso interfere na sua rotina.
“Tem o lado positivo e negativo. O positivo é que eu sei que é para meu bem, pois tudo o que os meus pais fazem é para me proteger de tanta violência e de todos os males que podem me acontecer por eu ser menor de idade. A parte negativa é que às vezes deixo de curtir coisas legais com os meus colegas”, afirma.

Ele destaca que a postura dos pais de outros jovens da sua idade é bem diferente da que está acostumado em casa.
“Acho que são muito liberais. Tenho conhecidos com pais bem diferentes dos meus, pois fazem tudo como e quando querem. Com isso, vejo que eles não têm muito limites, chegando ao ponto de utilizar bebidas alcoólicas em excesso e até drogas”, conta.