O trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV) terminou, oficialmente, no ano passado, com a publicação de três volumes que contam boa parte do mais recente período da ditadura militar no Brasil (1964-85). Mas tudo, tudo mesmo, foi analisado? Será que os documentos que comprovam violações de Direitos Humanos, prisões e perseguições de militantes políticos e assassinatos em instalações do Estado, por exemplo, foram disponibilizados? O jornalista e escritor mineiro Lucas Figueiredo se debruçou sobre o tema, e comprova que, mesmo após o trabalho da CNV, uma importante parte da história do país ainda está escondida.

O resultado da pesquisa pode ser conferido no livro “Lugar nenhum - Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura”, que será lançado nesta quarta-feira (7), às 18h30, no Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O autor fará um debate com o jornalista João Paulo Cunha, além de autografar a obra recém-lançada.

A investigação de Lucas comprova que ainda milhares de documentos das Forças Armadas, principalmente da Marinha, foram microfilmados antes de serem destruídos. No entanto, eles ainda não forma disponibilizados, apensar de o Brasil ter tido seis presidentes civis desde 1988.

“É um pedaço na nossa história tão nebuloso. Imaginar que a ditadura acabou há 30 anos, e a gente está numa transição que não acaba. Hoje a gente nem fala mais em corpo. Ninguém pode desaparecer sem história. É por isso que a gente precisa continuar escrevendo e continuar lendo”, enfatizou.

A maior parte da apuração realizada para o livro foi feita enquanto Lucas coordenou um grupo de jornalistas para a CNV, supervisionado pela professora Heloisa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais. A missão era levantar o máximo de informações possíveis sobre o período, junto a arquivos públicos e privados.

“A gente conseguiu localizar documentos, e conseguimos comprovar que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica microfilmaram uma quantidade significativa de documentos. Até então, o que aparecia é que tinham destruído, queimado, e que não tinha registro. Pelo o que a gente viu, o que aconteceu foi que o arquivo em papel migrou para o microfilme. Houve uma operação mutio grande para preservar. Dentro dessa documentação tem um prontuário de “pessoa mortas”. Mais de 40 mil páginas – a maioria na década de 1970 – e que as Forças Armadas dizem que não têm informação”, explicou. Só na Marinha, de acordo com Lucas, foram mais de 1,2 milhão de páginas microfilmadas.

Para o autor, “fica muito claro que as Forças Armadas destruiram uma quantidade grande de material. Foi uma destruição calculada. E isso pode ser considerado crime. Quem diz não sou eu, é a legislação de salvaguarda, que é citada pelos próprios documentos. A gente conseguiu comprovar, até 2013, uma parcela significativa não tinha sido destruida, e era mantida pelas Forças Armadas”, afirmou.

Na opinião de Lucas, se eles tivessem destruído tudo, seria uma confissão de culpa.