O PSB nacional dá como certa a desfiliação da candidata derrotada à Presidência da República, Marina Silva, da legenda, em nome da retomada do projeto dela de criação da Rede Sustentabilidade. Porém, está nos planos da ex-senadora trocar de partido somente depois que for garantido o registro da Rede pela Justiça Eleitoral.

Até lá, a dona de mais de 22 milhões de votos no primeiro turno das eleições deste ano, terceira mais votada do pleito, não deverá trabalhar com afinco pelo fortalecimento do PSB e, em paralelo, terá que cavar a capilaridade da Rede para as eleições municipais de 2016. Apoiadores da acreana retomaram, na última terça-feira, a coleta de 100 mil assinaturas para apresentar ao Tribunal Superior Eleitoral em janeiro de 2015.

De acordo com o porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, ex-deputado federal Walter Feldman, braço direito de Marina, “não tem nada de sair do PSB agora”. “Estamos em fase de reflexão. Vamos fazer uma reunião na segunda quinzena de novembro próximo para tomar decisões, mas há um longo processo de viabilização. Até lá, ela fica sim no PSB”, afirmou ao Hoje em Dia.

Na semana passada, Marina Silva divulgou um vídeo em que reafirmou seu desejo de mudança, por meio da formação do partido.

“Pelo futuro sustentável que sonhamos em construir, me dirijo aos meus companheiros e a todos os brasileiros e brasileiras com a velha, persistente e incansável saudação de sempre: a luta continua e não vamos desistir do Brasil”.

MINAS GERAIS

Em Minas, segundo colégio eleitoral do país, Marina terá que lidar com o afastamento de importantes lideranças, como o ambientalista Apolo Heringer Lisboa, que chegou a ser cotado para concorrer ao governo de Minas este ano por apoiadores da rede e o ex-deputado federal José Fernando Aparecido de Oliveira, que garantiu palanque à ex-candidata em 2010 no Estado.

Para Apolo, a acreana não tem perfil de liderança para encabeçar as mudanças que o Brasil precisa. Ele diz ainda que a fala de Marina, em defesa da democracia, vai na contramão de suas atitudes, por ela não tem consultado suas bases antes de definir apoio ao ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, morto em acidente aéreo, em agosto, e ao candidato derrotado ao Planalto, Aécio Neves (PSDB).

“Eu me afastei definitivamente e isso está acontecendo muito fortemente também em São Paulo, com o movimento Frente Avante. Marina deu uma mancada muito forte em Minas, negou apoio à candidatura da Rede e a do PSB foi um fiasco. Saí da Rede há meses”, acrescenta Apolo.

José Fernando se limitou a desejar “boa sorte” à ex-senadora na nova etapa com a Rede.

Dissidências teriam acontecido antes das eleições presidenciais

A porta-voz da Rede Sustentabilidade em Minas, Carla Queiroz, nega a desmobilização do grupo político no Estado. De acordo com ela, as baixas “não são muitas” e no caso de Apolo Lisboa e José Fernando de Oliveira, se deram “antes das eleições”. “Os filiados que saíram não participaram das reuniões e acabaram ficando desmotivados. Não temos um índice alto de afastamento. Perdemos lideranças importantes sim, como o ‘Zé Fernando’ e o Apolo, porque eles não perceberam que a Rede é horizontal, não tem um líder que pensa e joga ideias para os liderados”, disse.

O vereador Roberto Carlos (PTdoB), de Ipatinga, no Vale do Aço, um dos ex-aliados de Marina, discorda do argumento apresentado por Carla. “Me decepcionei com Marina em 2013, quando eu era do PV, após a tentativa frustrada de criação da Rede, capitaneada por ela”, disse. “Tenho certeza, pelo contato com amigos da Rede, que Marina logo vai se desfiliar do PSB”, conta.

Hoje, a Rede conta com apenas 38 apoiadores em Minas, que se organizam, a partir de agora, para conseguir as 15 mil assinaturas pedidas pela direção nacional para atingir às 100 mil necessárias. “Estamos elaborando o DNA da Rede e pretendemos, até 25 de dezembro deste ano, processar as assinaturas e preparar as fichas para apresentar aos cartórios”.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), consta no acórdão que indeferiu o primeiro pedido de criação da Rede que “nada impede que as assinaturas já colhidas sejam anexadas a um eventual novo pedido de registro”. A informação foi dada pela assessoria de imprensa do tribunal.

No ano passado, a Rede teve 442.525 assinaturas reconhecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das 668 mil enviadas aos cartórios e 904 mil coletadas, e chegaram mais 9 mil assinaturas certificadas posteriormente.

Questionada sobre o cenário para 2016, Carla confirma que a orientação é que a futura legenda seja considerada uma “alternativa atrativa” à polarização entre PT e PSDB e fazer vereadores e prefeitos na próxima disputa, para fortalecer Marina Silva na corrida pela Presidência em 2018.