Boletos atrasados, demissão de funcionários, pousadas vazias e até fechamento de um restaurante. Este é o cenário em São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima conhecido como Macacos, 39 dias após uma empresa de auditoria se negar a atestar a estabilidade da barragem B3/B4, da Vale, na Mina Mar Azul.

Sem garantias de segurança da estrutura, que foi alçada ao nível 2 de risco de ruptura, 305 pessoas foram retiradas de casas e removidas para hotéis em 16 de fevereiro. Os acessos às pousadas e restaurantes do distrito também foram dificultados com a interdição da estrada Fazenda do Engenho. A ação, segundo comerciantes, resultou em um afastamento de turistas.

Para tentar trazer de volta os visitantes a São Sebastião das Águas Claras, comerciantes negociam com a Vale a criação de uma campanha publicitária. A peça será paga pela mineradora, mas produzida pelos moradores do distrito, convocando os turistas para retomarem as visitas ao vilarejo. Ainda não há prazo para que o acordo seja finalizado. 

Enquanto a situação se arrasta, o chef de cozinha Rafael Tocchetto fechou o restaurante Campagne, mantido por ele há dois anos no distrito. Seis funcionários foram demitidos. Outros quatro, que estavam em processo de contratação, viram a chance de uma colocação no mercado de trabalho indo por água abaixo. 

O principal acesso ao restaurante era pela via que foi interditada por estar dentro da chamada Zona de Autossalvamento (ZAS) – área que seria atingida pelos rejeitos em caso de colapso. “Eu já gastei R$ 40 mil para quitar dívidas com fornecedores e pagando o acerto dos meus funcionários. Fora o faturamento que eu perdi nesses dias”, disse.

Sem perspectiva de mudança no quadro, Tocchetto já procura outro endereço, fora do distrito, para reabrir o estabelecimento. “Eu não vou abrir meu restaurante enquanto tiver barragem com risco de rompimento me ameaçando”, desabafou. 

Situação semelhante à do chef de cozinha é percebida em pousadas do distrito. Em uma época do ano em que, normalmente, haveria 100% de ocupação devido aos feriados do Carnaval e da Semana Santa, as estalagens estão com movimento abaixo da média. “O movimento caiu muito. Não está chegando a 40% da ocupação”, explica Guilherme Pablo, gerente da Pousada Vilarejo Plus.

Mesmo distante da Zona de Autossalvamento, a hospedagem ainda não conseguiu se recuperar depois do afastamento dos turistas. Antes do aviso de evacuação, a duas semanas do Carnaval, 100% dos quartos estavam ocupados, mas apenas 5% dos clientes mantiveram a reserva. “Na Semana Santa estamos fazendo promoções, abaixando o preço, mas ainda assim só 30% dos quartos foram reservados”, conta o administrador, que já demitiu dois funcionários.

Uma das mais tradicionais de Macacos, a Pousada do Seu João também está à míngua. Segundo o gerente Maurício Rocha, a arrecadação caiu 80% desde a elevação de nível no risco ruptura da estrutura da Vale. O acesso mais fácil à estalagem é pela Estrada Fazenda do Engenho. “As pessoas não podem apedrejar nossa região. Nós não temos culpa dessa situação”, lamenta. 

Marcelo Sant’ana, chefe da Defesa Civil de Nova Lima, informou que não há prazo para a liberação da estrada. A reportagem questionou a Vale se há alguma assistência aos comerciantes. A mineradora informou que estuda a melhor maneira de indenizar "todos aqueles que foram afetados pelas remoções preventivas realizadas pela Defesa Civil". 

Além disso

O Ministério Público de Minas Gerais, em 18 de março, bloqueou R$ 1 bilhão das contas da Vale para reparação de danos aos moradores de Macacos. O órgão ainda recomendo que a mineradora garanta "a melhor assistência possível e um atendimento imediato às necessidades das pessoas que estão alojadas em hotéis e pousadas ou casas de parentes ou terceiros, quanto a transporte, alimentação, medicamentos, atendimentos de saúde e psicológicos e outros". O MPMG ainda determinou que a Vale revisasse toda a área de autossalvamento da barragem B3/B4, em caso de ruptura. 

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