CRISBASTOS

Com clientes ansiosas para voltar a cuidar dos cabelos, Cris Bastos não vê a hora de reabrir seu salão

Atividades consideradas não-essenciais suspensas, aumento do desemprego, menor quantidade de dinheiro em circulação e incertezas em relação ao futuro. Os efeitos colaterais da pandemia do novo coronavírus impactam diretamente a economia e desenham um cenário difícil para o setor de comércio e serviços. Além do fato de muitos negócios estarem paralisados, o consumidor se mostra reticente em suas expectativas, mesmo quando a quarentena começar a ser relaxada. É o que mostra o levantamento mensal da Fundação Ipead/UFMG.

O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) medido pela entidade registrou, em abril, a mínima histórica de uma série iniciada em 2004. Puxada, especialmente, pela redução na pretensão de compra, que caiu 24,92% em relação a março (e, no ano, apresenta índice negativo de 24,3%) diante do momento de incerteza. Itens como móveis, moradia, eletrodomésticos e eletrônicos (não incluindo telefonia e informática) e turismo despencaram vertiginosamente entre as prioridades para os próximos meses. Entre os que ainda se salvam estão vestuário e calçados e os reunidos no campo Outros.

Um exemplo é o mercado da estética e beleza, que vinha numa média anual de crescimento de 4,1% no país na última década, de acordo com os dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).

Se também enfrenta queda nas vendas no período da pandemia (estimada entre 10 e 15% ainda em março), o setor aposta na demanda reprimida provocada pelo isolamento social. Os últimos dias tornaram praticamente impossível cuidar dos cabelos, barbas e da pele como de costume, diante dos salões fechados. Algo que tende a ser uma das prioridades quando do afrouxamento das regras de quarentena.

Ansiedade

Quem trabalha na área já identifica uma boa perspectiva de retomada. A cabeleireira Cris Bastos só não tem ainda a agenda lotada porque, como os concorrentes, aguarda a confirmação de quando poderá abrir novamente.

Mas interesse e ansiedade das clientes não faltam. “Sei que vou ter que consertar algumas ‘invenções’ de quem se arriscou em casa, mas não tem problema. Estou doida para pôr a mão na massa e fazer cabelo de novo”, diz.

Ela se mostra tranquila quanto às modificações que terá de fazer. “Eu já atendo de máscara, porque sou alérgica e qualquer cheiro forte me faz mal. Além disso, o espaço é amplo e as clientes não ficam próximas umas das outras. Vamos tomar todos os cuidados, mas as adaptações não devem ser tantas. No nosso caso, as pessoas não sentem falta apenas do cabelo como gostariam, mas a gente acaba sendo também meio confidente, psicóloga e médica”, lembra.

Demanda reprimida pode ajudar a salvar
negócios e empregos num primeiro momento

Para o presidente do Ipead, professor Fabrício Missio, a retomada do comércio tende a ser muito mais lenta do que a da própria pandemia em si, não só diante do cenário demonstrado pelo índice de confiança do consumidor, mas, também, por conta da cautela para voltar às ruas e aos hábitos pré-pandemia.
Para alguns setores como o da higiene e beleza, no entanto, Missio projeta uma recuperação mais rápida, que pode garantir até mesmo a sobrevivência, devido à demanda reprimida.

“Não chega a ser como a alimentação e o vestuário, que se tornam essenciais, mas já viraram um hábito de consumo. É bem provável que haja um boom, inclusive com algum aumento de preços por causa da procura. Não são setores capazes de rebocar a recuperação da economia, mas podem salvar muitos CNPJs e empregos em curto e médio prazos”.

Ele enxerga um movimento semelhante em relação a bares e restaurantes, mas que não deve se sustentar por muito tempo. “As pessoas sentem falta de sair, sentar para conversar, mas, se o risco persistir, vão fazer isso pouco”.

As incertezas em relação ao futuro tendem a ser o principal freio ao consumo num primeiro momento. “Não se sabe até quando isso vai durar, se será necessário estender medidas como benefícios sociais e redução de jornadas e salários. As pessoas vão poupar não como investimento, mas proteção, até que sintam condições para voltar a comprar em maior escala”, conclui Missio.