Assim como muitos setores da economia brasileira, a siderurgia passou grande aperto na primeira metade do ano, sobretudo entre o primeiro e o segundo trimestres, após a chegada da pandemia da Covid-19. Justamente neste 2020, em que Minas, um dos berços da indústria nacional do aço – e que responde, atualmente, por um terço da produção bruta brasileira do segmento –, comemora o tricentenário de criação. A data oficial, aliás, é hoje e marca o início de uma série de reportagens do Hoje em Dia sobre os 300 anos do Estado, especialmente sob o prisma econômico.

Segundo o Instituto Aço Brasil, além de liderar o ranking dos principais polos siderúrgicos do país, com cerca de 30% da produção total de aço, ou algo em torno de 10,4 milhões de toneladas, em 2019, Minas também se destaca quando o assunto é o consumo: são absorvidos aqui 12% do montante nacional de semiacabados e laminados, menos apenas do que em São Paulo. 

A participação mineira nas vendas internas e externas também é historicamente expressiva, com proporção semelhante à da produção, e foi duramente afetada, sobretudo entre março e abril, pela estagnação geral de mercado provocada pela pandemia. Basta lembrar que nada menos do que 14 altos-fornos foram desligados no país, sendo que, já em julho, antes do religamento de todos, de dez seguiam inoperantes seis eram em Minas.

Lembre-se ainda que, no ápice da pandemia, houve forte queda de consumo e a indústria brasileira do aço teve que abafar altos fornos e paralisar outras unidades de produção, chegando a operar com apenas 45% da capacidade instalada. Os prognósticos de queda do PIB eram então sombrios não só no Brasil como na grande maioria dos países 

Reação vigorosa

O presidente do Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, diz, contudo, que as indústrias siderúrgicas do Estado, que abriga nove parques produtores de aço, e as do restante do país têm vivenciado, desde a metade de 2020, uma “vigorosa recuperação”, com ênfase nas vendas internas. Estimativas do próprio instituto, que no início da crise estimava queda de até 19% no faturamento em 2020, em relação a 2019, reviu as projeções e, na semana passada, anunciou números bem menos preocupantes.

Apostando em relativa estabilidade nas comercializações internas (0,5%), espera-se atingir 18,9 milhões de toneladas ao fim do ano, com queda de apenas 1% no consumo aparente – que deve atingir 20,8 milhões de toneladas. No tocante à produção, a da indústria brasileira e mineira do aço deve decrescer, sim, mas apenas 5,6% em relação ao ano passado, bem menos do que se imaginava. Isso deve significar um total de 30,7 milhões de toneladas na atual temporada. As importações devem cair 17,4% em relação a 2019 e as exportações devem ter queda de 16,3%.

Para 2021, segundo o dirigente, o olhar é de otimismo, baseado na crença de retomada do crescimento sustentado. A expectativa é de aumento de 5,3% nas vendas internas e de 5,8% no consumo de produtos siderúrgicos. A expectativa é de maior consumo de aço na construção e na infraestrutura, e maior participação da indústria nacional no setor de óleo e gás e energia renovável.

Segmento aposta no crescimento econômico sustentado em 2021 e projeta indicadores positivos: vendas internas devem subir mais de 5%

Além disso:

A história de Minas, nos últimos 300 anos, está impregnada da mineração, claro – o que justifica, inclusive, o nome do Estado –, e da siderurgia, segmento que transforma recursos naturais em elementos fundamentais ao desenvolvimento, como o ferro e o aço. 

Alguns marcos dessa relação vêm dos séculos XVIII e XIX, com as primeiras tentativas de criação de indústrias siderúrgicas em solo mineiro. Jean Monlevade, que acabou dando nome a uma das principais hoje cidades dedicadas à atividade, por exemplo, trabalhou com o experiente alemão Eschwege, outro pioneiro, em diversos projetos ligados à indústria do ferro.

Depois, aventurou-se no segmento, associando-se ao Capitão Luiz Soares de Gouveia na construção de um alto-forno em Caeté. Na segunda metade dos anos 1800, foi responsável por um empreendimento inaugural da região que hoje é denominada Vale do Aço. 

As referências importantes são inúmeras, mas vale citar a criação da Escola de Minas de Ouro Preto pelo engenheiro francês Claude Henri Gorceix, a pedido de Dom Pedro II, em 1876, ou a fundação da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, nos anos 20 do século passado 

Também não se pode esquecer do papel crucial para a expansão industrial de Minas e do Brasil. Primeiro, de Getúlio Vargas, nos anos 30, e, depois, do presidente Juscelino Kubitschek, diamantinense, com o qual o país viu seu ramo industrial crescer exponencialmente, diante do slogan “50 anos em 5”. Ambos propiciaram enorme evolução da siderurgia mineira, que, nas últimas décadas, seguiu crescendo de maneira sólida e cada vez mais promissora.

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