No começo do ano, as dificuldades financeiras apertaram Maria da Conceição de tal forma que a moradora do bairro Santa Lúcia, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, encontrou uma saída inusitada para amenizar o problema. Com o desemprego dela e do marido, a solução foi vender o imóvel em que viviam para quitar dívidas e tentar manter, a todo o custo, o mesmo padrão de consumo anterior à crise. Sem a casa própria, cada um foi morar com as respectivas mães. Maria continuou no Santa Lúcia, mas o esposo teve que se mudar para Governador Valadares, a mais de 3oo quilômetros da capital.

Maria e o marido fazem parte do perfil de “famílias abaladas”, que, segundo pesquisa do instituto Nielsen, correspondem a 28% dos lares de todo país, com 13,7 milhões de famílias e maior concentração em Minas, no Espírito Santo e no interior fluminense. São famílias que foram impactadas pela atual crise econômica, com queda na renda, mas que tentam manter o consumo com criatividade, busca por preços mais em conta e troca de marcas.

“A vida mudou, mas a gente dá um jeito. Cada um ajuda a sua mãe e, quando dá, nos encontramos para namorar”, conta Maria, que, depois de perder o emprego de auxiliar administrativa, começou a trabalhar como diarista, sem sucesso.

A mudança de vida de Maria também se refletiu no comportamento ao fazer compras. Agora vivendo em uma residência com mais quatro adultos (três deles desempregados) e uma criança de 7 anos, ela passou a preferir compras maiores, feitas nos chamados atacarejos, onde o preço fica mais em conta se a quantidade de itens for maior. “Comprar picado não dá. Fico procurando preços menores pra manter o nível”, conta Maria, que gasta cerca de R$ 1.000 por mês em comida e produtos de limpeza.

“Consigo comprar três pacotes de arroz que custam R$ 15 a unidade por menos de R$ 12”, diz ela, que também passou a adquirir marcas de café menos tradicionais e cortou produtos de menor necessidade como refrigerantes.

Classe C

O perfil de famílias abaladas também se concentra, de acordo com o estudo da Nielsen, na classe C. “Durante o boom da economia do país, há cerca de oito anos, essas famílias entraram em categorias que não consumiam e agora estão sofrendo bastante”, explica a líder de Indústria, Higiene, Beleza e Perecíveis da Nielsen, Margareth Utimura.

Para Felipe Leroy, professor de Economia do Ibmec-MG, o desemprego alto afeta diretamente o cotidiano das pessoas. “Somado ao aumento dos preços, como os reajustes da gasolina e da energia, a capacidade de consumo despenca”, diz.

De diferentes perfis, famílias adotam novas ações para adequar compras ao orçamento

Fazer malabarismo para manter o padrão de consumo, no entanto, não é estratégia adotada por todos. Um outro perfil indicado pela pesquisa da Nielsen, o das “famílias conscientes”, mostra que 19% dos lares brasileiros vivem com metas pré-definidas de gastos e não assumem riscos, gastando menos de acordo com a queda na renda.

E nem sempre a melhor saída é fazer compras em grandes quantidades. Famílias como a da atendente Jaqueline Neves acabam preferindo comprar aos poucos para aproveitar as promoções.

“Antes, fazíamos uma compra fixa por mês. Agora, sou a única com carteira assinada em casa, por isso, compramos picado para aproveitar os preços promocionais”, diz. Jaqueline, que divide a casa em Venda Nova com a mãe e a irmã, diminuiu o valor das compras do mês de R$ 600 para R$ 450 depois que a matriarca perdeu o emprego.

Também desempregadas, Flaviana de Oliveira e a tia Geovânia Souza cortaram o consumo drasticamente. “A gente mantém o básico, mas tivemos que cortar a cervejinha e a carne do churrasco no fim de semana”, conta Geovânia, que ficou desempregada há seis meses. Assim, o valor gasto no supermercado foi reduzido pela metade.

Planejamento

Além das conscientes e abaladas, que se concentram na classe C, o estudo da Nielsen identifica, nas classes A e B, as “famílias administradoras” (11% dos lares), que chegaram a aumentar os gastos em 5% na crise. Há ainda as “promissoras” (19% do total), cujos membros perderam emprego ou contraíram dívidas, mas conseguiram recuperar, com planejamento, o padrão de consumo anterior.

“O grupo dos promissores é o primeiro que recupera a taxa de consumo, voltando aos níveis que existiam antes da crise”, diz a porta-voz da Nielsen, Margareth Utimura. Com grande concentração no Sul do país, o grupo dá indícios de que a região será a primeira a se recuperar economicamente.

Nas classes D e E, o estudo descreve ainda as “famílias vulneráveis” (13% da população), impactadas fortemente pela crise, e as “equilibristas”, presente em 14% dos domicílios.