Em tempos de recessão econômica, a forma mais básica de comércio, o escambo, ganha força. O motivo é simples. Por meio da troca de produtos e serviços, profissionais realizam sonhos e desengavetam projetos, que vão da reforma de um banheiro à festa do filho. A prática é compensadora, mas requer cuidados, conforme afirmam especialistas e os próprios “permuteiros”. 

A cirurgiã dentista Thais Costa Donato é adepta do sistema de trocas. Na primeira consulta feita por ela, há alguns anos, o tratamento foi pago com dois pneus de automóvel. “A permuta funciona superbem quando as pessoas já se conhecem e já conhecem o trabalho uma da outra. As permutas às cegas, no entanto, são complicadas”, afirma.

E ela pode se considerar uma expert no assunto. Ao longo da carreira, a dentista já reformou o banheiro do consultório, trocou tratamento dentário por lanches low carb, docinhos e salgados, além de muitos outros produtos e serviços.

Ela destaca, no entanto, que é comum as pessoas superfaturarem os preços na tentativa de ganhar um pouco mais com algum produto. “Tentei fazer uma permuta com uma pessoa para a realização da festa da minha filha. O valor proposto por ela foi muito superior a uma festa em bufê. Não compensava”, alerta.

Doces

A designer de doces e proprietária da Sugar Sweet Patisserie, Luh Maia, já fez dezenas de trocas e não se arrepende. “Já troquei meu trabalho por salão de festa, dentista, fotógrafa, salão de beleza, bufê, impressão gráfica e outros”, diz.

Para fugir das “furadas”, ela dá preferência aos parceiros do dia a dia. Para isso, a especialista em doces personalizados e outros fornecedores do segmento de festas criaram um grupo de trocas. 

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A proprietária da Sugar Sweet Patisserie, Luh Maia, paga o tratamento ortodôntico da filha com os doces personalizados

 

“A permuta é uma coisa muito boa se for com uma pessoa de confiança. O problema é que até chegar na pessoa de confiança você tropeça muito. Nem todo mundo leva a sério. Já tive erros e acertos”, afirma. 

Economia

Ela comenta que não consegue mensurar quanto já economizou usando o escambo, mas estima que o valor seja alto.  Atualmente, por exemplo, a filha de Luh faz tratamento ortodôntico, cujo preço não é barato, pago com os doces personalizados. 

Nesse caso, a dentista tem um crédito com Luh. “Troquei o aparelho pelas festas das filhas da dentista”, explica. O tratamento é mensal, mas a festa será realizada no ano que vem. Dessa forma, a ortodontista tem um crédito com Luh. “Por isso tem que ser uma relação de confiança. Normalmente, como os serviços são diferentes, uma das partes acaba ficando com um crédito”, explica.

 

Comerciante economiza até R$ 3 mil na festa da filha

Dandara Matos, proprietária da Horta no Potim, empresa do ramo de alimentação saudável, faz permutas sempre que pode. Recentemente, ela realizou uma reforma no banheiro da empresa por meio da troca. “A permuta é uma forma excelente de fechar negócio. É um ganha-ganha, pois o custo é menor para as duas partes”, diz. 

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Dandara Matos, proprietária da Horta no Potim, faz permutas sempre que pode  

Ela também costuma usar a permuta para divulgar a Horta no Potim. “Às vezes, troco coffee break pelo serviço ou produto que a empresa oferece. É uma forma de outras pessoas conhecerem o meu trabalho. Já troquei por cursos de capacitação para os funcionários e outros benefícios para eles. Assim, divulgo a minha marca e ainda motivo a equipe. Até o meu contador e o serviço de controle de pragas são pagos com permuta”, diz. 

Em Contagem, a proprietária da Vip vestidos de festa, Jaqueline Conti, também usa e abusa das trocas. No ano passado, ela conseguiu realizar a festa completa da filha usando o sistema de troca. Este ano, já está escolhendo o tema para fazer outra comemoração, também à base do escambo. “Imagino que eu deixe de gastar uns R$ 3 mil. A pessoa também economiza muito. Por isso é bom. Mas só fecho com pessoas com as quais tenho certeza que o serviço será bem realizado. Não dá para arriscar”, alerta.

Precificação

O analista do Sebrae-Minas, Haroldo Santos, explica que precificar a permuta não é tarefa fácil. O motivo é simples. Nem sempre preço significa valor. “Na troca, a necessidade impera. Se uma pessoa oferece um serviço de R$ 1 mil e precisa muito de um produto de R$ 800, por que não trocar? Se ela realmente necessita do produto, não vejo problema na troca”, diz.

Santos comenta que, apesar de crescente, a permuta ainda está pouco usada no Brasil devido à cultura do país. “É comum que as pessoas só entendam algo como vantajoso se ganham mais do que o outro. No caso da permuta deve prevalecer o benefício mútuo, levando mais em consideração a satisfação do que o preço de mercado. Preço deve ser apenas um balizador”, adverte.