A operação Ross, desencadeada pela Polícia Federal (PF) na manhã desta terça-feira (11), visa cumprir 21 mandados de busca e apreensão para apurar propina de R$ 110 milhões supostamente paga pela J&F. Segundo o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), o montante aponta para "indícios de relação ilícita" do senador mineiro Aécio Neves (PSDB) com executivos do Grupo J&F entre 2014 e 2017.

O ministro autorizou as buscas em endereços do senador Aécio Neves (PSDB-MG), da irmã dele, Andréa Neves, e também do deputado Paulinho da Força (SD-SP). Na sede da PF em Minas, no bairro Gutierrez, na região Oeste de Belo Horizonte, a PF deve ouvir 11 investigados nesta terça. Cinco deles já foram ouvidos na parte da manhã, entre eles, Andréa Neves, o primo de Aécio, Frederico Pacheco, o articulador político Danilo de Castro e o marqueteiro Paulo Vasconcelos.

"O quadro revelado pela autoridade policial, na medida em que ratificado, em parte, pelo Órgão acusador, demonstra a existência de indícios de relação ilícita entre o investigado Aécio Neves e executivos do Grupo J&F, entre os anos de 2014 a 2017, caracterizada pelo alegado recebimento de quantias em dinheiro, pelo senador ou em seu favor, mediante mecanismos característicos de lavagem de capitais, via empresas e pessoas identificadas na investigação em curso", destacou o ministro Marco Aurélio.

"Há mais: ficaram demonstrados indicativos da atuação do parlamentar, nessa qualidade, como contrapartida aos benefícios financeiros."

Também são alvo da investigação os deputados Cristiane Brasil (PTB-RJ) e Benito Gama (PTB-BA) e os senadores Agripino Maia (DEM-RN) e Antonio Anastasia (PSDB-MG).

A Operação Ross mira em crimes de corrupção passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Na decisão, Marco Aurélio determinou que a Polícia Federal cumprisse as ordens judiciais "simultaneamente e com máxima discrição". Além de Minas, as medidas estão sendo cumpridas nos Estados de São Paulo, Rio, Bahia, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Amapá e no Distrito Federal.

"Autorizo o acesso, pela autoridade policial e pelo Ministério Público Federal, aos documentos e dados armazenados em computadores e equipamentos eletrônicos apreendidos", determinou o ministro.

A operação vasculhou os endereços atrás de "documentos referentes a fatos, registros e livros contábeis formais ou informais, recibos, anotações, apontamentos, agendas, ordens de pagamento, contratos, documentos alusivos à manutenção e movimentação de contas bancárias no Brasil e no exterior, em nome próprio ou de terceiros". 

A PF também foi autorizada a coletar "arquivos eletrônicos de qualquer espécie, bem assim as respectivas bases físicas, tais como mídias eletrônicas, HDs, laptops, notebooks, pendrives, CDs, DVDs, smartphones, telefones móveis, agendas eletrônicas, havendo suspeita de conterem material relevante".

Defesas

Aécio e Paulinho negam irregularidades. Em nota, a defesa do tucano diz que há uma tentativa de transformar doações ao PSDB em ato ilícito. Já Paulinho, acusado de vender apoio, afirma que apoiava Aécio desde 2013. O espaço está aberto para a manifestação de outros envolvidos na operação.

Íntegra da nota da defesa de Aécio Neves

"O Senador Aécio Neves sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos e apresentar todos os documentos que se fizessem necessários às investigações, bastando para isso o contato com seus advogados. 

O inquérito policial baseia-se  nas delações de executivos da JBS que tentam transformar as doações feitas a campanhas do PSDB, e devidamente registradas na justiça eleitoral, em algo ilícito  para, convenientemente, tentar manter os generosos benefícios de seus acordos de colaboração. A correta e isenta investigação vai apontar a verdade é a legalidade das doações feitas".

Alberto Zacharias Toron
Advogado

 

* Com Estadão Conteúdo