As medidas de combate ao terrorismo utilizadas pelas grandes potências estão focadas num modelo ultrapassado de inteligência, estruturado a partir dos anos 2000 para conter organizações que atuavam em redes, algo que não corresponde à realidade atual. 

Isso explicaria a intensificação dos atentados nos últimos tempos, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. A avaliação é do professor de Segurança e Defesa do curso de Relações Internacionais do Ibmec, Oswaldo Dehon.

Histórico

Desde janeiro de 2015, foram quase dez ataques terroristas a países europeus e norte-americanos, todos relacionados ao Estado Islâmico (EI), grupo extremista sunita, nascido da Al-Qaeda, no Iraque, e que busca implantar um califado.

“O Estado Islâmico atua de forma muito diferente da Al-Qaeda, que era o foco anterior. Os recursos dela conseguiram ser rastreados. Já o Estado Islâmico tem uma capital (no norte do Iraque), possui recursos próprios e vende petróleo. E tem essa coisa bem inusitada dos lobos solitários. Com a Al-Qaeda, havia redes, com a existência de grupos menores capazes de produção de atentados. Hoje nós temos pessoas. Um serviço de inteligência que dê conta de monitorar todos os indivíduos não existe”, analisa Dehon.

Colapso

Os atentados ao aeroporto e ao metrô de Bruxelas, em março deste ano, foram o símbolo do fim desse modelo de combate ao terrorismo. 

Sede da OTAN e de vários organismos da União Europeia, a cidade era tida como um alvo óbvio de atentados, que não puderam ser evitados, causando grande desgaste nos serviços de inteligência.

Os analistas reforçam o fato de boa parte dos ataques muitas vezes acontecerem sem nenhuma ordem expressa ou conexão com o EI.

No lugar de organizações bem estruturadas, que agiam a partir de certo idealismo organizado, qualquer inconformismo e indignação no nível individual tem impulsionado atos terroristas.

Alvo certo

Essa indignação contra o Ocidente se faz notar sobretudo na França, que recebeu, nas últimas décadas, um grande afluxo de migrantes vindos de suas ex-colônias. 

“Há uma coleção de fatores: o choque das concepções islâmicas de vida com a ocidental (muito evidente na França, por exemplo, com a legislação sobre o uso do véu islâmico), um certo rancor colonial dos imigrantes e filhos, e a centralidade simbólica do país, no coração da Europa”, explica o professor de política internacional da UFMG Dawisson Belém Lopes.

No caso alemão, há a mesma dificuldade de incorporação de árabes e islamitas à cultura local, pontua o professor Oswaldo Dehon. Mas, ao contrário do anti-islamismo presente na França, há xenofobia de uma maneira mais ampla, o que torna o quadro diferente.

“Essa tática de fazer guerras convencionais é complicada. Por um lado, é necessário que os governos deem resposta à opinião pública e mostrem força ao inimigo. Mas é um inimigo incerto, volátil, que some, desaparece, reivindica ataca em toda parte”
Dawisson Belém Lopes
Pesquisador de política internacional da UFMG

Monitoramento deve ser sigiloso, dizem especialistas

“Um ponto considerado por muitos observadores é que há uma relação direta e cada vez notória entre a cobertura que a grande imprensa faz dessa barbárie e eventos. Os grupos, cada vez mais, planejam seus ataques utilizando os meios de comunicação para propaganda”, pontua o pesquisador de política internacional da UFMG Dawisson Belém.

Bola de neve

A avaliação de Dawisson é compartilhada por Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais na UERJ e na Fundação Getúlio Vargas. “Cria-se um círculo vicioso. Cada ato desse, na medida em que repercute, acaba chamando para mais”, observa.

Nesse sentido, até mesmo a exposição de ações preventivas devem ser evitadas, avalia. “O trabalho de contraterrorismo deve ser de bastidor, mais sigiloso. Claro que é normal alguma atenção, já que vamos ser palco das Olimpíadas, mas exageram e a alimentam o medo”, diz.

Brasil

O pesquisador avalia que o país precisa manter o foco nas ações de monitoramento de mídias sociais, que têm sido feitas de forma adequada, mas tomar cuidado para não “atirar para tudo que é lado”, como forma de responder às pressões feitas por Estados Unidos e União Europeia. “As forças de segurança brasileiras querem mostrar serviço e acabam criando uma espetacularização”.

O General do Exército Gerson Menandro, chefe de operações conjuntas do Ministério da Defesa, pondera. “De fato, é preciso um ponto de equilíbrio. Temos cerca de 100 cenários possíveis treinados. Mas nunca dizemos quais cenários são esses. É importante que todos vejam que temos capacidade de resposta e que estamos preparados”, diz.

Ele destaca que especialistas de segurança de cerca de 100 países estarão no Brasil para o monitoramento das Olimpíadas, que pela primeira edição contará com um centro de inteligência integrado.

Fronteiras

Menandro afirma que uma intensificação do monitoramento das fronteiras terrestres e marítimas está em curso e que os profissionais de segurança do Brasil passaram por vários treinamentos com forças do exterior. 

No entanto, reconhece a dificuldade de controlar o terrorismo invisível  e que o desafio das Olimpíadas é maior do que o da Copa. “É preciso que todos tenham conscientização. Percebendo alguma coisa que fuja a normalidade, deve-se ligar no 190 e 193. Mas sem gerar pânico”, lembra.