Celeiro de empregos nos últimos anos, as cidades-polo do interior de Minas Gerais enfrentaram, em 2015, o pior ano para o mercado de trabalho desde 2002, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego.

Dentre as dez últimas posições do ranking do emprego no interior Estado em 2015, metade registrou fechamento de postos de trabalho pela primeira vez nos últimos 13 anos, ou seja, houve mais desligamentos do que admissões. São regiões que foram do “apagão” de mão de obra para a sobreoferta de força de trabalho em uma velocidade assustadora.

Se adaptam a essa nova realidade as cidades de Ubá, polo da indústria de móveis, Pouso Alegre, destaque da indústria de autopeças e farmacêutica, e Governador Valadares, forte no setor de serviços. Ainda completam o grupo: Uberlândia e Uberaba, onde a agroindústria é o pilar da economia local.

“Em 2016, a situação vai piorar, com fuga de trabalhadores para o mercado informal. Em 2017 devemos perceber alguma melhoria. Grande parte do Estado, como as cidades do Triângulo Mineiro, é dependente de commodities agrícolas, que estão em desvalorização, o que piora ainda mais o cenário”, afirmou o professor de Economia da faculdade Ibmec Felipe Leroy.

Em Juiz de Fora, o mercado de trabalho foi superavitário de 2002 a 2013, mas em 2014 registrou o fechamento de 53 vagas. Em 2015, houve um déficit 3,8 mil postos de trabalho.

O professor de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora Lourival Oliveira Júnior explica como uma cidade que operou com pleno emprego nos últimos anos rapidamente apresentou deterioração no cenário do trabalho.
“O mercado começou a ser afetado em 2014, com os temporários não sendo efetivados, o que é relevante para uma cidade com foco no setor de serviços e comércio. A indústria começou a demitir, concessionárias de veículos fecharam e o efeito cascata foi se alastrando. Apesar dos postos fechados serem de salários baixos, é um volume grande de pessoas, que geram uma massa salarial grande, e que não está mais em circulação”, apontou.

O motorista valadarense Edney Camilo, de 37 anos, não imaginou que o carrinho de churros que montou para a mulher, há dois anos, fosse se transformar no principal meio de sustento da família. A ideia inicial era reforçar o orçamento doméstico, mas, como ficou desempregado há dois meses, teve que se juntar a ela para aumentar os ganhos.

“Tudo começou com uma brincadeira. Amamos churros e queríamos compartilhar nossa receita. Mas agora virou questão de sobrevivência”, conta.

Camilo trabalhou por cinco anos em uma empresa de transportes que fechou as portas em Governador Valadares. Parte do acerto ainda está no banco, reservado para emergências.

A intenção é voltar para o mercado formal de trabalho. Se não for possível, Camilo avalia duas opções: fazer empréstimo para abrir uma fábrica de planejados em sociedade com o irmão que já está no ramo ou emigrar para os Estados Unidos, seguindo uma rota já conhecida pelos valadarenses.
 
Mercado de trabalho de Itabira tem o pior desempenho de Minas
 
Há três anos, Itabira, na região Central do Estado, contabiliza demissões superiores às contratações. Nada, porém, que se aproxime do saldo negativo de 2015, com 7.308 postos de trabalhos fechados. O déficit foi de 1.041 em 2013 e de 1.991 em 2014. O fraco desempenho reflete a desvalorização do principal produto da cidade, e de Minas Gerais, o minério de ferro, além de evidenciar uma economia baseada em apenas um setor.

“Itabira depende do minério de ferro para manter aquecida a economia e, por consequência, seu mercado de trabalho. A Vale, principal empresa, dita os rumos do emprego, junto com as terceirizadas que prestam serviço para ela”, afirmou o professor de economia do Ibmec Felipe Leroy. Depois de ser vendido próximo de US$ 120 a tonelada em 2014, o minério começou 2015 cotado a US$ 67,39 e encerrou dezembro a US$ 39,60. A expectativa dos analistas para este ano é de se manter em torno de US$ 40. Quanto menor o preço, mais necessário o corte de custos, sacrificando empregos.

Já em Ipatinga, a situação do emprego é resultado de uma crise setorial na siderurgia somada ao desaquecimento geral na economia brasileira. Nos últimos cinco anos, o município contabilizou déficit na geração de empregos em quatro, totalizando a perda de 11 mil vagas, considerando-se a diferença entre demitidos e admitidos.

Principal referência do Vale do Aço, a cidade tem como motor da economia o setor siderúrgico, em profunda crise internacional, e a Usiminas como principal empregador direto e indireto. O presidente da regional da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) no Vale do Aço, Luciano José de Araújo, observa que as tentativas de diversificação não tiveram êxito.

“Formamos e capacitamos um grupo de empresas do setor metal-mecânico para fornecer equipamentos para o setor naval, mas primeiro veio a crise com as empresas do Eike Batista e depois essa situação na Petrobras, frustrando nossos planos. Com a indústria enfraquecida e demitindo, outros setores, como o comércio, também começam a demitir, e lojas estão fechando”, afirmou.

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