A nova capital mineira ainda ganhava forma quando os estrangeiros começaram a desembarcar no então povoado Curral Del Rey. Primeira metrópole planejada do país e cartão de visitas da República, a cidade só ganharia o nome “Belo Horizonte” quatro anos após a inauguração, em 1901, e o comércio já movimentava a cidade. E, por meio dele, os imigrantes conquistaram espaço e criaram verdadeiros impérios. A influência de outros povos na consolidação econômica de Belo Horizonte é tema da primeira reportagem da série “Portas Abertas – Os Imigrantes no Comércio de BH” que o Hoje em Dia publica a partir desta sexta (27).

De acordo com o pesquisador Osias Ribeiro Neves, um dos objetivos ao trazer estrangeiros era o “embranquecimento” da população. “A imigração de orientais e africanos era proibida, e a viagem da maioria dos demais povos era patrocinada pelo Estado. Na visão do governo, já havia negros demais. Por isso, recebemos italianos, portugueses, alemães e árabes”, afirma Neves.

Especialistas em construção, estima-se que entre 1878 e 1900, 300 mil italianos tenham desembarcado no Brasil. Para atraí-los, o Estado anunciava nos jornais da Itália, oferecendo alojamento e emprego.

Transição

Muitos trabalharam na edificação da cidade, mas com a meta de juntar dinheiro para abrir o próprio negócio. Em pouco tempo, eles comandavam marmorarias e lojas de materiais de construção, e traziam inovações no modo de se fazer comércio, conforme afirma o diretor da Câmara de Comércio Italiana de Minas, Anísio Ciscotto Filho.

A Casa Falci, inaugurada em 1908 e de pé até hoje, surgiu nessa época. Herdeiro do fundador, o atual proprietário, Bruno Falci, conta que o bisavô passou pelo Rio de Janeiro e se instalou em Belo Horizonte após a consolidação da cidade.

“A influência do comércio dos imigrantes nos costumes da cidade foi muito grande. Nossa família teve participação na fundação da CDL e do Cruzeiro, por exemplo”, explica. A paixão pelo Cruzeiro era tão grande que o avô de Falci contratava jogadores para a loja. “Eles não precisavam ter um desempenho tão bom no comércio, mas era imprescindível jogar bem”, pondera Falci.

Os italianos também dominavam a panificação. A Padaria e Confeitaria Savassi, que deu nome à região, era comandada por um italiano, Amilcare Savassi. A Padaria e Confeitaria ABC, que deu nome à praça na região Centro-Sul da cidade, também era gerida por uma família da Itália, a Pampolini.

“A influência do comércio dos imigrantes nos costumes da cidade foi muito grande”

Bruno Falci - Filho do fundador da Casa Falci

Os italianos também dominavam a panificação. A Padaria e Confeitaria Savassi, que deu nome à região, era comandada por um italiano, Amilcare Savassi. A Padaria e Confeitaria ABC, que deu nome à praça na região Centro-Sul da cidade, também era gerida por uma família da Itália, a Pampolini.

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Primeiro mercado municipal, no início da avenida Afonso Pena, onde atualmente é a Praça Rio Branco, mais conhecida como Praça da Rodoviária


Vitrines, diversificação nas vendas e aquisição de imóvel próprio são alguns dos ‘ensinamentos’

Os árabes também chegaram com tudo à nova capital. Foi criação deles a primeira vitrine da cidade, na rua Caetés, projetada para receber o comércio, conforme afirma o presidente da Fundação Libanesa de Minas Gerais (Fuliban), Frederico Aburachid.

“Dom Pedro II foi ao Líbano em 1876 e incentivou a migração para o Brasil. Ele apresentou o país para os libaneses e disse aqui eles seriam muito bem-vindos. E os libaneses vieram”, diz o representante da Fuliban.

Os desembarques de imigrantes do oriente médio foram crescentes. Com o início da Primeira Guerra Mundial, as famílias colocavam as crianças e os jovens nos navios e os enviavam ao Brasil, para que sobrevivessem.
 

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Diretor da Câmara de Comércio Italiana de Minas Gerais, Anísio Ciscotto explica como em Belo Horizonte a integração entre italianos e locais foi diferente da ocorrida em outra cidades brasileiras


​Comerciantes natos, os “turcos”, como eram chamados erroneamente pela população, eram responsáveis por trazer novidades à cidade. Trabalhando como mascates, eles vendiam principalmente joias e tecidos de porta em porta. “Eram tidos como bandeirantes, porque levavam conhecimento e materiais diversos à população”, afirma.

Resquícios

Para o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo Souza e Silva, os imigrantes foram fundamentais para moldar a cidade como ela é hoje. Uma das heranças mais importantes dos estrangeiros, de acordo com eles, é a ampliação do mix de produtos das lojas.

“Antigamente, as lojas vendiam apenas um produto. Queijo, por exemplo. Depois dos imigrantes, as lojas começaram a vender o queijo, o doce, a vasilha para comer os dois, entre outros. O mix aumentou muito”, diz o representante do comércio.

Outro resquício da imigração é a valorização dos empregados e dos clientes. “Os imigrantes cobravam muito, mas os empregados acabavam fazendo um ótimo trabalho e ficavam na empresa por muitos anos”, afirma Souza e Silva.

Também como influência dos imigrantes, ele cita o fato de o brasileiro começar a comprar imóveis próprios, ao invés de alugá-los. Por serem proprietários, os investimentos eram constantes e o ponto sempre valorizado, atraindo mais clientes.
 

 


ALÉM DISSO

A ocupação de Belo Horizonte pelos italianos se deu de forma diferente do ocorrido no restante do país. Como a nova capital ainda estava em construção, os imigrantes moravam em abrigos e rapidamente se misturavam aos mineiros. Como nas outras cidades as comunidades de imigrantes já estavam estabelecidas, quem chegava ficava em casas de outros italianos, localizadas em bairros específicos.

"A maioria era de homens solteiros. Vários deles se casaram com mulheres brasileiras e formaram famílias, fortalecendo raízes em solo mineiro”, explica o diretor da Câmara de Comércio Italiana de Minas Gerais, Anísio Ciscotto Filho.