Brasileiros que estão na França presenciaram de perto o atentado à revista satírica Charlie Hebdo e como foi a reação dos franceses em diversas partes do país. Confira alguns depoimentos dados ao jornal Hoje em Dia:

"Desde a manhã de hoje (quarta), a França entrou em choque. Do trajeto de casa para a reunião de trabalho, oq vi foram olhos aflitos. Perdidos. Não foi apenas a Redação de um jornal de sátiras que foi atacado. Foi o valor de liberdade de todo um país que foi alvo de uma monstruosidade dificil de medir. Você pode ser a favor das caricaturas de Maomé feitas pelos cartunistas,  ou não. O que não dá é se abster deste sentimento de indignação e de revolta. 8 horas depois do ataque ao Charlie Hebdo foi a vez da população ir às ruas expressar a sua dor.  Quando cheguei ao Vieux Port, emblemático bairro de Marselha, encontrei uma massa de 7 mil pessoas em silêncio. O mesmo olhar aflito, perdido. Muitos muçulmanos presentes, em lágrimas. Judeus, católicos, ateus, gays, negros... uma verdadeira comunhão raramente vista por aqui. Saí de lá mais otimista do que quando cheguei. Ver 7 mil pessoas unidas me fez concluir algo importante: na dor somos todos iguais, na dor nos sentimos iguais. A dor nos une. E é essa união, é essa solidariedade, a resposta que nos damos aos tiros que mataram os cartunistas Charb, Cabu, Wolinski e Tignous, dois policiais e outros jornalistas esta manhã". 
 
Cinthia Nascimento Coelho-Fize
Jornalista - Empresária, casada com um francês
 
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"O atentado assustou a todos nós, mas as lojas se mantiveram abertas e a cidade, embora de luto, deu segmento ao seu ritmo" 
 
Karina Delmas
Mestranda em matemática da Université Pierre et Marie Currie
 
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"Durante todo o dia esse foi o grande assunto por toda Paris. Em muitas cidades, as pessoas reuniram-se em silêncio para mostrar sua indignação. Milhares de pessoas foram até a praça da República. Gente de todo o mundo, e não apenas jornalistas. Nesse momento, nós não acreditamos que haja um outro ataque. Pensamos que essa foi uma ação direcionada. Esse jornal era realmente o alvo. A última vez que vimos algo tão grave assim foi em 1995 (entre julho e outubro de 1995, a França foi atingida por ataques de oito bombas que farão oito mortos e quase 200 feridos"
 
Tom Delmas
Engenheiro de computação

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"A polícia fechou a estação de metro de Republique, na praça de mesmo nome, um dos maiores hubs da cidade (passam 5 linhas diferentes). Descemos uma estação antes e já havia uma multidão saindo da praça (por volta de 20h). Ao chegar na praça uma multidão um tanto quanto taciturna, poucos gritos de guerra eram puxados principalmente pelos mais jovens: "liberté, d'expression"; "fraternité", "char-li-ber-té". 
 
A estátua no centro da praça foi escalada por muitos manifestantes que entoavam os cantos. Alguns portavam fotos dos cartunistas mortos, muitos outros portavam as capas polêmicas do Charlie. 
 
Um dos cartazes mais marcantes era a imagem de um muçulmano de turbante, chorando, com os dizeres "nous aussi on pleure" (nós também choramos).
 
Um grupo carregava cartazes com letras que formavam a frase: "not afraid".
 
Outro grupo cantava uma música tradicional francesa, bem triste, da qual conheço somente a melodia, não sei o nome nem a letra.
 
Muitas pessoas empunhavam canetas (!!!) e velas em solidariedade aos cartunistas mortos. A estátua centra da praça se tornou um altar rodeado de velas, cartazes, ediçoes passadas do Charlie e algumas canetas.
 
Por volta das 21h uma grande imagem foi projetada na base da estátua com os dizeres "Nous sommes Charlie" (nós somos Charlie) e um balão improvisado (um saco plástico com uma chama improvisada) decolou da estátua e aterrou numa árvore ao lado. 
 
Os cafés e bares em volta da praça estavam ao mesmo tempo mais vazios (nas mesas) e mais cheios (no balcão).
As 21h30 quando saímos ainda haviam pessoas se dirigindo a praça empunhando velas, cartazes e edições passadas do jornal."
 
Marcelo La Rovere
Doutorando em Economia na Universidade Paris 13

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"A alegria de voltar pra casa depois das férias de fim de ano rapidamente deu lugar à tristeza profunda quando soube do atentado ao "Charlie Hebdo". Apesar de não ser leitora do jornal atingido, o atentado foi uma mensagem clara a todo cidadão que vive sob o lema da República Francesa: Liberdade, Fraternidade, Igualdade. A liberdade foi visada no peito, e nosso esforço cotidiano deve ser pra garantir que o tripé não desmorone." 

Natalia Itabayana
Psicóloga