HAVANA, 11 Nov 2013 (AFP) - O jornal oficial Granma justificou nesta segunda-feira (11) o fechamento dos cinemas privados em Cuba, decretado há dez dias pelo governo de Raúl Castro, mas admitiu que a impopular medida criou um debate na ilha.

"Não podiam continuar sendo admitidas, diante dos olhos de todos, das violações que eram cometidas", afirma o jornal ao justificar o fechamento, em um longo artigo escrito por seu subdiretor, Oscar Sánchez.

O governo cubano ordenou no último dia 2 o fechamento dos cinemas particulares e o fim da venda privada de roupas importadas, medidas que alguns intelectuais interpretaram como um "retrocesso" nas reformas do presidente Raúl Castro.

O Granma diz que estas medidas provocaram debates nas redes sociais e meios de comunicação da ilha, todos sob o controle estatal.

"Há quem afirme que demos um passo atrás no trabalho por conta própria, que a iniciativa privada foi cerceada", afirma o jornal, numa admissão incomum de que existem discrepâncias entre os cubanos sobre alguma decisão comunista.

Mas o Granma afirma que, "acima das consequências temporárias que as medidas adotadas possam causar a um setor da população, está o interesse de toda a cidadania em preservar a legalidade e a ordem".

O Conselho de Ministros ordenou o fechamento imediato das salas particulares de cinemas improvisadas em casas e deu um prazo até 31 de dezembro para o fim dos negócios privados de roupas importadas, que haviam se proliferado na ilha.

O governo afirmou que estas são atividades que "nunca foram autorizadas" e que são exercidas a partir de licenças para outras cerca de 200 atividades econômicas legalizadas no âmbito das reformas.

O governo nega que as medidas representem um retrocesso.

"Não se trata, de maneira alguma, de um passo para trás. Pelo contrário, continuaremos avançando decisivamente na atualização do modelo econômico cubano" , afirmou o governo neste sábado.

O fechamento de cinemas e de lojas privadas de roupas te como objetivo "combater a impunidade, cumprir a lei e proteger os trabalhadores por conta própria que, em sua maioria, cumprem os regulamentos estabelecidos", acrescentou.

As pequenas salas de cinema operadas por particulares, a maioria com tecnologia 3D - inexistente nas grandes salas estatais -, funcionam, por exemplo, com licenças para o ofício de operador de equipamentos para recreação infantil, enquanto que os vendedores de roupas importadas atuam com a permissão para o trabalho de alfaiates e costureiras.

Raúl Castro ampliou o trabalho privado, mas as atividades são bastante reguladas e é preciso ser licenciado para exercê-las, embora muitos estabelecimentos comerciais existam na informalidade.

Além disso, expira no fim do ano o prazo para o fechamento das pequenas empresas que vendem ferragens e encanamentos, que são importados ou comprados na rede estatal e revendidos no varejo.

Muitos desses negócios têm apenas uma mesa de vendas na rua, popularmente chamadas de "merolicos", algo como camelôs.

As roupas e os equipamentos audiovisuais geralmente são adquiridos nos Estados Unidos, na Espanha, no Equador e são enviados para a ilha por amigos ou parentes de cubanos, mas também podem entrar no país através de pessoas que atuam como "mulas".

Como parte de suas reformas para "atualizar" o esgotado modelo econômico de estilo soviético, Raul Castro tem incentivado o trabalho privado, que envolve mais de 440 mil pessoas. Há três anos eram apenas 157 mil pessoas envolvidas.

Alguns acadêmicos e escritores reprovaram a atitude do governo de acabar com negócios que têm sido bem acolhidos pela população e que têm estimulado o emprego e a economia da ilha.

"É um retrocesso", disse o professor universitário e blogueiro Harold Cardenas, em um artigo reproduzido em vários blogs.

"Em vez de criar licenças de trabalho ou adaptar as que já existem para que contemplem esta nova realidade, a resposta foi o fechamento desses estabelecimentos", lamentou Cardenas.