Tão logo as tropas norte-americanas iniciaram a saída gradual do Afeganistão, no Oriente Médio, após 20 anos de ocupação, o Talibã iniciou paralelamente o processo de retomada do poder. E, segundo pesquisadores, a ação consolidada no domingo (15) foi mais rápida que o esperado. Mas como e por que esse movimento aconteceu?

Para o cientista político João Paulo Nicolini Gabriel, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o processo de retirada foi influenciado, em alguma medida, pela opinião pública nos Estados Unidos. "Os gastos militares começaram a ser mais criticados depois da crise econômica de 2008. Há um longo debate, inclusive na academia, sobre a necessidade da intervenção no Afeganistão, o que também pressionava por um plano de evacuação", ressaltou.

Acordo bilateral

A retirada gradual foi pactuada no ano passado em um acordo bilateral firmado entre o então presidente Donald Trump e o Talibã. O processo deveria ser concluído até maio deste ano. A contrapartida afegã seria não dar abrigo a terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

Após Trump, Joe Biden assumiu a presidência e manteve o processo, alterando o prazo: prometendo encerrar a ocupação até setembro de 2021. Posteriormente, antecipou para agosto. À medida em que as forças dos EUA deixavam o país, ocorreu um rápido avanço das forças talibãs sobre as mais diversas cidades.

A velocidade gerou repercussões políticas nos EUA, com grupos de oposição criticando a condução da saída.

No domingo (15), em um pronunciamento público, o secretário de Estado, Antony Blinken, declarou: "Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão em mente: lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro (de 2001), e essa missão foi bem-sucedida".

Armamento americano ficou para trás

Para Fernando Luz Brancoli, pesquisador e professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a rápida recuperação do poder pelos talibãs coloca em cheque os bilhões de dólares investidos pelos norte-americanos no treinamento do exército afegão. "Os armamentos deixados pelos EUA vão cair nas mãos dos talibãs. Tem até uma curiosidade: eles tinham lá os Super Tucanos, que são aeronaves construídas no Brasil junto com os EUA. Agora o Talibã tem acesso a eles. Não sei se vão saber pilotar", observa.

Na segunda (16), Joe Biden avaliou que nunca existiria um bom momento para retirar as tropas do país. "A verdade é: isso aconteceu mais rápido do que esperávamos. Então, o que aconteceu? Os líderes políticos do Afeganistão desistiram e fugiram do país. Os militares afegãos desistiram, às vezes, sem tentar lutar", acrescentou.

Perspectiva

O que irá acontecer daqui em diante dependerá também dos desdobramentos de geopolítica, isto é, de como os talibãs irão dialogar com o restante do mundo. "Estamos vendo algumas mudanças importantes. O grupo que foi derrubado pelos norte-americanos há 20 anos está agora virando governo e, inclusive, sendo reconhecido como tal por alguns países, como é o caso da China. Durante muito tempo, nas discussões sobre a geopolítica da região, se debatia o papel dos EUA, da Rússia, da Inglaterra. Pela primeira vez, precisamos entender qual será o papel chinês e qual vai ser a política chinesa para a região. Já está claro que eles vão negociar com os talibãs", observa Brancoli.

*Com Agência Brasil

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