Os aviões de combate russos começaram a se retirar nesta terça-feira da Síria, poucas horas depois do anúncio de Vladimir Putin, que os ocidentais esperam que contribua para o avanço das negociações de paz em Genebra.

O inesperado anúncio do presidente Putin na noite de segunda-feira (14) de tirar do país a maior parte de seu contingente militar pegou de surpresa os opositores sírios e os ocidentais, que reagiram com prudência.

Os militares russos na Síria começaram nesta terça-feira (15) a recolher os equipamentos e o material em grandes aviões de transporte. Um primeiro grupo de aeronaves, incluindo aviões de transporte T-154 e bombardeiros Su-34, decolou da base aérea de Hmeimin (noroeste) em direção à Rússia, indicou o ministério da Defesa.

Putin, que desde que em setembro ordenou a intervenção de aviões russos na Síria em apoio ao regime, se tornando um ator chave no conflito, anunciou sua decisão depois de falar com o presidente Bashar al-Assad.

"A tarefa que havíamos encomendado ao nosso ministério da Defesa e às forças armadas foi globalmente realizada, e por isso ordenei ao ministério da Defesa que comece a partir de amanhã (terça-feira) a retirada da maior parte de nossos contingentes", disse Putin na televisão.

"Para permitir a supervisão da trégua nos combates (que entrou em vigor em 27 de fevereiro), a parte russa conservará em território sírio instalações de manutenção de voos", indicou o Kremlin.

Significativo

O enviado especial da ONU para a Síria, Stafan de Mistura, considerou que a retirada parcial russa da Síria é um "acontecimento significativo", que espera que tenha um "impacto positivo" nas negociações de paz em Genebra.

"Este anúncio pelo presidente (Putin) no mesmo dia do início das negociações interssírias, é um acontecimento significativo, que esperamos que tenha um impacto positivo nestas negociações em Genebra para alcançar uma solução política ao conflito sírio", disse De Mistura.

Já o Irã, através de seu ministro das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif, considerou positivo o anúncio do Kremlin.

A Casa Branca, por sua vez, indicou que Putin e Barack Obama falaram por telefone sobre a "retirada parcial" das forças russas, embora segundo Josh Earnest, um porta-voz do presidente americano, seja difícil medir o impacto deste anúncio sobre as negociações.

A Rússia também não esclareceu se continuará tendo aviões de combate na Síria nem o que acontecerá com as baterias antimísseis S-400 mobilizadas no país.
    
Apoio ao regime de Assad

Desde 30 de setembro, mais de 50 aviões de combate russos atacaram alvos terroristas e permitiram que o exército do regime, em dificuldades, conquistasse importantes vitórias. No entanto, os ocidentais acusam a Rússia de atacar mais os rebeldes moderados que os jihadistas do Estado Islâmico (EI).

Em Nova York, o embaixador russo na ONU, Vitali Churkin, disse ter recebido instruções de "intensificar os esforços para chegar a uma solução política na Síria".

E em Genebra, onde estão sendo realizadas negociações indiretas entre as partes em conflito, a oposição síria acolheu a decisão russa com prudência.

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, disse que a retirada da Rússia "aumenta a pressão sobre o regime do presidente Assad para negociar por fim de maneira séria em Genebra a transição política".

O anúncio de Putin chega poucas horas após o início em Genebra de um novo ciclo de negociações entre os representantes do regime e a fragmentada oposição síria, nas quais a questão central continua sendo o futuro de Bashar al-Assad.