O IBGE vai alterar a composição do cálculo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, a partir de janeiro de 2020. Alguns grupos de serviços ou produtos ganharão ou perderão peso na elaboração do indicador, e a previsão é que a inflação fique ainda menor no ano que vem. Motivo para celebrar? Não exatamente. Especialistas alertam que um IPCA baixo não significa, necessariamente, uma boa notícia.

Isso porque a inflação também é reflexo do consumo, e um indicador pequeno pode representar uma economia enfraquecida. Tanto que o governo federal liberou, neste ano, o saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na intenção de reaquecer o consumo. Por enquanto, a análise dos economistas é que a mudança na composição do IPCA irá retratar mais fielmente a realidade das famílias brasileiras.

“A inflação será mais realista. Estará computando itens que de fato fazem parte da cesta de consumo da categoria de renda que o IPCA abrange (até 40 salários mínimos por família). A tendência do processo é que a inflação caia em 2020, porque a economia está fraca, tem pouco consumo e tem pouco espaço para aumento do preço. E se houver qualquer aumento, o consumidor substituirá um produto por outro”, analisou Paulo Bretas, presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG).

Os economistas Gilson Machado, da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), e Guilherme Almeida, da Fecomércio-MG, concordam que a inflação baixa pode ser reflexo de um consumo bem abaixo do ideal. 

O desemprego em alta também contribui para este cenário. Segundo o IBGE, há 12,6 milhões de desempregados no Brasil. A renda escassa se reflete num consumo pífio, o que segura o avanço de preços. 

“Se tenho menor demanda, o preço dos itens cai e logo impacta o IPCA. Estamos observando na economia hoje uma inflação baixa, fruto de um consumo (pequeno), devido ao desemprego alto”, disse Almeida.

“O consumo está um pouco moderado. As pessoas, hoje, compram o que precisam e, depois, o supérfluo. Mas no fim do segundo semestre, tradicionalmente, o consumo é maior que no primeiro”, explicou Machado.

Pior do que a inflação seguir em patamar pequeno em 2020, segundo os economistas, é o risco de haver recuo dos preços, a chamada deflação. Engana-se quem imagina que a inflação negativa seja melhor para o país. “A deflação prolongada é tão ruim quanto a inflação alta, pois ela corrói o patrimônio da pessoa”, explicou Bretas. No Brasil, não há registro de deflação em nível nacional por longo período. Houve ocorrência em um período curto, de julho a setembro de 1998.

“O trabalhador hoje está buscando renda. Nem é mais emprego. A informalidade está alta. Um trabalhador que não tem carteira assinada não está contribuindo para a Previdência. É o efeito em cascata. Se a economia não responde durante um período muito longo – não que eu esteja enxergando isso agora –, há um perigo muito forte, que é a deflação”, alertou Bretas.

 

Transporte passa a ter peso maior do que alimentação

O avanço da tecnologia alterou o peso de diversos grupos que compõem o cálculo da inflação no Brasil, levando o grupo de transportes a ter o maior destaque na elaboração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Pela primeira vez desde que o IPCA foi criado (1981), o quesito “transportes” será o componente principal, passando a responder por 20,8% do indicador. “Alimentação e bebidas”, que lideravam, passam a ter 19% de representação.

A mudança ajuda a retratar a nova realidade do brasileiro, adepta, por exemplo, aos aplicativos de transporte de passageiros.

“Alguns produtos saem da estrutura antiga (da elaboração do IPCA) e entram novos”, informou Alexandre de Lima Veloso, analista do IBGE em Belo Horizonte.

As alterações levam em conta a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), que o IBGE compila a cada década. A atual edição, divulgada neste ano, foi elaborada após os técnicos do instituto saírem às ruas em 2017 e 2018. A anterior foi realizada no período 2008/2009.

Naquela época, a situação do Brasil era outra. Não havia, por exemplo, os aplicativos de transportes e os serviços de streaming. Estes e dezenas de outros componentes, agora, fazem parte da inflação. Por outro lado, fotocópias, revelação de fotografias e muitos itens deixam de fazer parte do cálculo.

“O comportamento do consumidor se modificou ao longo do tempo, como a gente vê pela inclusão de itens como a revolução tecnológica, como aplicativos e streaming. O que ficou obsoleto, como aparelho de DVD, deixou (de ser um componente do IPCA). O indicador avalia a cesta de consumo do brasileiro médio”, destacou Guilherme Almeida, economista-chefe da Fecomércio.